sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Saul Leiter


Saul Leiter (1923-2013) nasceu em Pittsburgh e estudou teologia em Cleveland. Aos 23 anos, ele abandonou a teologia para seguir carreira como pintor em Nova York. A chegada de Leiter a Nova York provocou mudanças imediatas em seu trabalho, ele logo tomou conhecimento do movimento expressionista abstrato  visitando exposições de Mark Rothko (1903-1970), com quem fez amizade. No final dos anos 40 começou a fotografar por influência do artista plástico e fotógrafo Richard Pousette-Dart (1916-1992). Outras influências, como a obra de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), o pioneiro na fotografia de rua, inspiraram o jovem Leiter a dedicar-se profissionalmente à fotografia, mas raramente representam trabalhos fotográficos. Leiter colocou tudo no centro, ao contrário de Cartier-Bresson que equilibrava uma coisa à esquerda com uma coisa à direita. Suas melhores fotos em preto e branco foram produzidas quase sem nenhuma técnica composicional. Leiter desenvolveu uma grande admiração pelos mestres da fotografia na França, mencionando Nègre, Nadar, Atget e Julia Margaret Cameron. Sua lista de fotógrafos notáveis inclui também os trabalhos de Jacob Riis, Lewis Hine e Irving Penn. Leiter dedicou igual atenção tanto à pintura, escultura e desenho, quanto à fotografia. Seu conhecimento em arte aliava-se a uma intensa curiosidade sobre os livros da extraordinária biblioteca de seu pai, um rabino com a firme convicção que fotografia era praticada por "vagabundos". "Minha família ficou muito triste por eu ter me tornado um fotógrafo  disse Leiter em uma entrevista de 2009 —, profundamente triste." No início da década de 1950, ele mostrou seu portfólio a Edward Steichen (1879-1973), o então diretor do departamento de fotografia do Museum of Modern Art de Nova York, e cinco fotos em preto e branco de Leiter foram incluídas na exposição coletiva intitulada Always the Young Strangers (Sempre os Jovens Estranhos), em 1953. O fotojornalista W. Eugene Smith (1918-1978) o apresentou a Alexey Brodovitch (1898-1971), o lendário diretor de arte da Harper's Bazaar, iniciando assim sua carreira como fotógrafo de moda, e colaborou para diversas revistas, como a Vogue e Esquire. A partir dos anos 60 dedicou-se à fotografia publicitária e aos projetos pessoais. 


Saul Leiter marcou um novo tipo de fotografia de rua, principalmente sua obra produzida em East Village em Manhattan. "Ele aplicou uma mentalidade pictórica que o mundo da fotografia não tinha visto", disse a assistente do fotógrafo e diretora da Fundação Saul Leiter, Margit Erb (New York Times, 27 de novembro de 2013). 
Leiter e Diane Arbus (1923-1971) moravam na mesma rua (10th Street, East Village), e com frequência a ajudava com suas tarefas como levar a roupa para lavar quando Arbus teve hepatite. Quando ele perguntou a Arbus se poderia fotografá-la, ela lhe respondeu: "Não teria medo de ser fotografada por você." Mais tarde, Arbus comentou com Leiter que gostaria de ver o mundo como ele realmente é e Leiter retrucou que não seria muito bom para seu trabalho já que possuía uma visão própria e especial.
Em 1948, Leiter trocou os filmes em preto e branco pelos coloridos. Ele obtinha cores suaves de filmes vencidos, ou usava filmes mais baratos e imprevisíveis de empresas desconhecidas para criar sua própria paleta de cores. 
Fotos: © Saul Leiter Estate, Cortesia Howard Greenberg Gallery (Rain, Nova York, c. 1940 / Diane Arbus em seu apartamento, 2 de novembro de 1970) / (Early Black and White, introdução por Martin Harrison, Steidl / Howard Greenberg Library, 2014 / Steve Crist, Contact Sheet, AMMO Books, 2012)
Link Howard Greenberg Gallery

sábado, 27 de dezembro de 2014

José Medeiros: Olho da rua

"No sertão do Nordeste brotam fábulas. Uma das melhores germinou na fertilíssima lavra do piauiense José Medeiros, que foi capaz de contá-la como um cantador, porém sem viola - e também sem a xilogravura e as palavras dos folhetos de cordel. Ele saiu com sua "máquina de ver" a tiracolo e se embrenhou por este Brasil adentro para extrair riquezas de se admirar pelo mundo afora." Leonel Kaz

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José Medeiros (1921-1990) nasceu em Teresina, Piauí. Aos 12 anos, havia aprendido a técnica de revelação com seu pai, um fotógrafo amador, e desde então não parou mais de fotografar.
Fotos: © José Medeiros (índio Caiapó, 1957 e índio Xavante, 1949, acervo Instituto Moreira Salles - IMS / Olho da Rua: O Brasil nas fotos de José Medeiros. Texto Leonel Kaz. Apresentação Arnaldo Jabor. Rio de Janeiro, Aprazível Edições, 2005/2006) / (Ella Fitzgerald e Joe Pass. Nature Boy, compositor Eden Ahbez (1908-1995) / Álbum Fitzgerald & Pass Again, Original Jazz Classics, 1976)
Um postal para o amigo Milton Ostetto.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Repórteres sem Fronteiras: campanha 2014


Em todo o mundo, 178 jornalistas estão presos. Repórteres são os principais alvos por aqueles que querem encobrir seus crimes. 
Reporters Without Borders
Link / Vídeo: 100° F at night and + 120° F during the day

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ernesto Bazan: Isla


Nascido em Palermo em 1959, Ernesto Bazan mudou-se para Nova York em 1979 para estudar fotografia na School of Visual Arts e em 1982 ganhou o prêmio Rencontres d'Arles International Photography, na categoria Jovens Fotógrafos. Em seu primeiro livro, Il Passato Perpetuo, publicado em 1982, uma série de fotografias sobre a comunidade ítalo-americana em Nova York, produzidas ao longo de quatro anos. Em 1983, viaja para a Ásia com bolsa de estudos concedida pela Paris Match. Bazan torna-se membro da agência Contrasto em 1992, e inicia o projeto sobre Cuba, recebendo o prêmio World Press Photo (1996), na categoria Vida Cotidiana, o prêmio Mother Jones, e em 1998, o prestigiado prêmio W. Eugene Smith. Bazan se mudou para Cuba em 1992, onde pôde desenvolver seu trabalho e onde encontrou a sua vocação de professor. Durante o período mais difícil da ilha, chamado de "período especial", as fotografias de Bazan concentram-se em seus habitantes e em sua luta desesperada para sobreviver. "No entanto, eles nunca perderam a capacidade de sorrir. Tentei captar a sua dignidade, sua paixão pela música e dança, seu fervor religioso", diz Bazan. Impedido pelas autoridades cubanas de viajar para participar de seus workshops de fotografia, em 2006 Bazan foi morar com sua família em Veracruz, no México. Seis anos depois, ele encontra suas fotografias panorâmicas em preto e branco, guardadas e esquecidas numa caixa velha. Bazan usou uma câmera panorâmica cerca de 11 anos atrás, comprada de um amigo que fazia pouco uso dela: "Para trabalhar com a panorâmica você tem que esquecer o 35 mm e aprender como compor a foto, que é duas vezes maior. Foi um processo intuitivo. Posso dizer isso agora, mas na época eu não sabia". 
Depois de 14 anos vivendo em Cuba, Bazan publica Isla (2014). Fecha com este livro de fotos panorâmicas a trilogia iniciada com Bazan Cuba (2008), prêmio de Melhor Livro do Ano no Festival de Fotografia de Nova York, e Al Campo (2011), coletânea de fotos sobre a vida agrícola e rural, seu primeiro livro com fotos em cores. Inspirou-o, sobretudo, o grau de identidade dessa relação com os amigos agricultores, gente humilde e sábia, compartilhando refeições, fumando charutos, conversando sobre plantio e colheita, família e existência.
Com o livro Isla, Bazan diz adeus a Cuba. Não é difícil compreender por que publicá-lo custou tanto ao fotógrafo, oito anos pelo menos. É o livro em que Bazan descobre, e narra, o amor verdadeiro pelo povo cubano - para sempre.
Foto: © Ernesto Bazan (Pai e filho, Havana, Cuba, 2002 / Isla, Bazan Photos Publishing, 2014 / Kickstarter. Reprodução cortesia do fotógrafo. Todos os direitos reservados).
Link Bazan Photos Workshops

sábado, 6 de dezembro de 2014

Graham Smith


Graham Smith (1947) usou uma câmera de grande formato quando começou a fotografar familiares, amigos, paisagens e comunidades operárias e indústrias pesadas em torno de sua cidade natal, Middlesbrough, na costa nordeste da Inglaterra. Motivado por uma profunda convicção pessoal e política, Smith produziu fotos como Thirty eight bastard years on the furnace front. Mess room for number 4 and number 5 furnaces (Trinta e oito anos desgraçados na frente da fornalha número 4 e número 5), retrata um homem - fatigado sem saber onde foram parar os anos - no refeitório de uma fundição de aço. Muitas vezes as fotografias de Smith eram uma resposta íntima a pubs específicos que ele frequentou por muitos anos, os quais, para alguns, funcionavam como centros comunitários ou locais de refúgio de situações desesperadoras. Nos anos 80, Margaret Thatcher (primeira-ministra britânica de 1979 a 1990), recorre a políticas ditas neoliberais: a intervenção do Estado na vida econômica é limitada para deixar espaço à livre concorrência. Essas políticas provocam grandes mudanças e movimentos de greve, especialmente na Grã-Bretanha. Membro de uma família com quatro gerações de trabalhadores na metalurgia e siderurgia, as demissões em massa e o declínio das atividades industriais tiveram nítidos efeitos sobre a sua produção fotográfica.
Graham Smith e Christopher Killip exibiram suas fotografias na exposição conjunta "Another Country" na Serpentine Gallery, em Londres, em 1985. Incomodado com as críticas da imprensa às suas fotos, Smith deixou de fotografar em 1990 e desde então raramente exibiu ou publicou seus trabalhos.
Suas fotografias encontram-se representadas nas coleções permanentes do Museum of Modern Art, Victoria and Albert Museum, Rose Gallery e Eric Franck Fine Art.
Foto: © Graham Smith (Thirty eight bastard years on the furnace front. Mess room for number 4 and number 5 furnaces. Clay Lane, South Bank, Middlesbrough, 1983 / Tudo sobre Fotografia, editor geral Julliet Hacking. Tradução Fabiano Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski, Sextante, 2012)


Foto original (reprodução em baixa resolução), sem corte na lateral à direita, link Eric Franck Fine Art.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Baron Wolman: Rolling Stone


"A súbita explosão de uma nova forma de expressão", Marshall McLuhan referindo-se ao movimento underground dos anos 60, especialmente em São Francisco, que ultrapassou as fronteiras da música e adotou valores culturais e posições políticas alternativas, fora dos padrões sociais convencionais ou contra eles. 
No final da década de 1960, Baron Wolman vivia no distrito Haight-Asbury em São Francisco, ganhando a vida como fotojornalista, trabalhando para qualquer um que lhe pagasse para tirar fotos. Em abril de 1967, o Mills College, em Oakland, Califórnia, um de seus clientes regulares, organizou um simpósio sobre rock 'n' roll. Nesse evento, o jovem jornalista Jann Wenner o convidou para se juntar à equipe como fotógrafo de uma revista, ainda sem nome, e, em caso afirmativo, se ele teria 10 mil dólares para investir. 
A Rolling Stone nasceu de uma ideia de Jann Wenner e Ralph Gleason, de que era hora de lançar uma publicação profissional sobre música enfatizando a crítica e a análise no lugar dos artigos sobre negócios da indústria musical, tão comuns ao gênero. O primeiro número da revista foi publicado em 9 de novembro de 1967. Na capa havia o logo desenhado a mão criado pelo designer Rick Griffin e uma foto de John Lennon no filme Que delícia de guerra. No miolo, o primeiro trabalho de Wolman para a revista, uma coletânia de fotos do Grateful Dead, sendo que algumas delas tinham sido proibidas, por alegação de envolvimento com maconha. Wolman fotografou os músicos pagando fiança e mais tarde posando nos degraus de sua casa na Rua Ashbury, 710, depois de uma memorável coletiva de imprensa em que os membros da banda explicavam seu posicionamento frente à prisão. Nos três anos em que fez parte da equipe da Rolling Stone, Wolman tinha consciência de estar participando de algo novo, destinado ao sucesso: "Tínhamos uma liberdade que, naquela época, os jornalistas desconheciam - fossem eles escritores ou fotógrafos -, uma liberdade para escrever e fotografar como quiséssemos, de sermos excêntricos, irônicos e irreverentes". Todavia, poucos teriam imaginado que a revista Rolling Stone ainda estaria sendo publicada após todas as outras revistas da contracultura do rock terem fechado as portas. Da mesma maneira, sem pensar jamais no valor que essas fotos teriam décadas mais tarde. Wolman testemunhou os acontecimentos mais importantes de uma geração de músicos - um retrato honesto, poderoso e simples de Jimi Hendrix, Frank Zappa, Janis Joplin, Eric Clapton, Miles Davis, Bob Dylan, entre outros. Captou imagens marcantes em Woodstock (1969), um festival que se tornou emblemático de uma época. 
"A fotografia de Baron abriu as portas para incontáveis pessoas que, inspiradas por suas fotografias, decidiram pegar uma câmera e elas mesmas fotografarem os músicos", explica Dave Brolan em texto de apresentação do livro de Wolman, Every Picture Tells a Story…The Rolling Stone Years (Omnibus Press, 2011). "Ele fez as escolhas com olhar de águia para os momentos que o comoviam e agora nos comovem, em filmes que rodou em sua câmera há aproximadamente 40 anos. Aqui estão elas, ainda frescas, ainda vivas, graças a Wolman", escreveu Tony Lane, concordando com a observação de Jerry Hopkins. "Eu digo que ele ainda vende sonhos".
Fotos: © Sylvia Johnson (o fotógrafo Baron Wolman e, ao fundo, foto de Jimi Hendrix, São Francisco, 1968) © Baron Wolman (Frank Zappa, Laurel Canyon, Los Angeles, 1968)
Cortesia do fotógrafo. Todos os direitos reservados.
(Os anos da Rolling Stone: cada foto conta uma história/ Baron Wolman; tradução Rosalia Munhoz. - São Paulo: Madras, 2012)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Edu Simões: La Quatrième Image


Convite / Foto: © Edu Simões (Menino com sucuri, Amazônia) 
Links: Edu Simões / La Quatrième Image

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

René Burri (1933-2014)


Em um texto de 1957, o fotógrafo suíço René Burri descreveu seu encontro com Pablo Picasso (1981-1973). Como diz o fotógrafo Claudio Versiani "a história que conta uma fotografia". 
Em 1953, René Burri, um jovem estudante de arte em Zurique, estava em Milão, na Itália, quando foi ver uma exposição de Picasso. O painel Guernica (1937) estava em exposição no Palazzo Reale, antigo palácio real que fora bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial, e apesar de terem refeito o telhado, nas paredes havia marcas da guerra. Burri sente grande admiração pela pessoa de Picasso, o homem por trás do artista:" Vi pessoas chorando. Foi emocionante. Picasso mudou a minha vida". Em Zurique, Burri mostra as fotografias da exposição a um de seus professores, o designer gráfico Alfred Willimann, que sugere o projeto de um pequeno livro. O passo seguinte foi a impressão de três exemplares, um livro para Willimann, um para Burri e o outro foi para o arquivo da escola. Dois anos mais tarde, Burri conhece Daniel-Henry Kahnweiler, colecionador e marchand que trabalhou com Matisse e Braque. Esse encontro casual ocorreu no café Select, em Zurique. O fotógrafo aproveita a sorte grande e pergunta, então, se Kahnweiler poderia mostrar seu livro a Picasso. Ele diz que sim. Quando já estava certo de que não iria obter resposta, recebeu uma carta: "Caro Sr. Burri, Pablo Picasso gostou muito do seu trabalho, mas gostaria que soubesse, ele perdeu o livro. Caso eu tenha alguma novidade, entrarei em contato. E não teve mais notícias." Burri se associou à Magnum em 1955, ano em que ficou vários dias à espreita para fotografar Picasso. No estúdio em Paris, seu secretário Jaime Sabartés lhe dizia simplesmente, deixe-me ver o que posso fazer para ajudá-lo. Em 1957, a revista Holliday o convida para fazer uma série de fotografias na Espanha. Hospedado em um hotel de luxo na praia em San Sebastián, Burri pega um jornal local e vê o seguinte artigo: Picasso vai para as touradas. Burri dirigi a noite toda, parando apenas para um café. Chega em Nimes na manhã seguinte: "Na arquibancada fiz um gesto com minha câmera para saber se Picasso consentia em ser fotografado, ele acenou com a cabeça para dizer que estava tudo certo. Eu mostrei as fotos para o meu melhor cliente, a revista Du. Eles estavam fazendo uma matéria sobre Picasso e tinha um outro fotógrafo fazendo as reproduções de sua obra, então me juntei a ele em uma visita à Villa La Californie, em Cannes. Eu ainda tinha que esperar, Sabartés poderia dizer: Bem, ele está ocupado. Quando finalmente ele me deixou entrar, vejo Picasso pegando um pedaço de papel e transformando-o em algo incrível, como um mágico. Fiz uma sessão de fotos com ele, Jaqueline e as crianças. Em determinado momento, eu disse a mim mesmo, René, seu pequeno livro deve estar em algum lugar nessa bagunça! Picasso nunca jogava nada fora. Enquanto olhava ao redor, me perguntando onde poderia estar escondido, Picasso olhou para mim e disse: Diga-me o que você estava pensando. Aquilo foi muito intenso, como se ele pudesse ler a minha mente, e eu me senti como uma criança apanhada com a mão na botija. Por um segundo, pensei em contar-lhe toda a história sobre o livreto, mas não o fiz."


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"Fotografei em Berlim, Chipre, Egito, Peru, Japão, Cuba. Fotografei a Guerra dos Seis Dias, em Israel, e os norte-americanos na Coréia. Fotografei personalidades, como Maria Callas, Le Corbusier e Che Guevara. Mas de certa maneira, meu encontro com Picasso foi um divisor de águas. Percebi que eu não sou um fanático por foto. Tomando-se a fotografia como uma forma de estabelecer-me na vida. Tive sorte e foi uma benção para mim. Mas há um outro nível de fotógrafo com sua propensão a supervalorizar o trabalho - a difícil competição para chamar a atenção do assunto; onde tirar fotos é como usar uma arma. Sem dúvida, um nível de profissionalismo que eu não desejo seguir."

Fotos: © René Burri / Magnum Photos (Guernica em exibição no Palazzo Reale, Milão, 1953 / Villa La Californie, Cannes, 1957 / Revista Du, agosto de 1958 / Magnum Stories, Phaidon, 2004)
Um postal para o amigo Claudio Versiani.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

José Bassit: Ceasa

Suas obras integram acervos de instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte de São Paulo. Fotojornalista desde 1985, José Bassit dedica-se com exclusividade aos projetos pessoais, empreendendo uma série de viagens por todo o país.

Você fez o ensaio fotográfico Ceasa (Centro de Abastecimento, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo). Como se dá a escolha de um determinado tema? 
Bassit: O ensaio do Ceasa surgiu de minhas andanças pelo Brasil. Uma das primeiras coisas que faço quando chego em alguma cidade, é visitar e também fotografar os mercados e feiras livres, Os mercados, além de uma riqueza visual muito grande, me mostram um pouco da cultura do lugar. A comida, os produtos vendidos, o artesanato e as pessoas que lá encontro mostram as características e peculiaridades da cidade e de seu povo. Estas visitas aos mercados e feiras, despertaram um olhar pelo Ceasa, que é o maior centro atacadista de alimentos do Brasil. A idéia do ensaio foi mostrar de onde vem a distribuição dos alimentos que abastecem a cidade de São Paulo. Depois de alguns dias fotografando, percebi que haviam produtores de todo país descarregando suas frutas, legumes e verduras, e se reabastecendo com outros produtos para levar a seu lugar de origem. Isto me mostrou a importância do Ceasa, como o maior centro de distribuição de alimentos do Brasil. 
Como é sua relação com as pessoas fotografadas? 
B: Quando há abertura , eu converso e levo fotos para eles depois.Tem casos que a interação muito estreita com o fotografado, pode atrapalhar tirando a concentração e o foco do objetivo. Mas este não foi o caso do Ceasa. Até fiz alguns amigos lá. 
O que lhe interessa em fotografia? E qual a importância da fotografia documental. 
B: Me interesso muito por trabalhos pessoais, autorais e documental. Acho bom quando você é que decide seu projeto, e não ter de agradar a ninguém, a não ser a você mesmo. No caso da fotografia documental, não existe tempo estipulado para você finalizar o trabalho, o que faz com que o fotógrafo se aprofunde no tema e obtenha um resultado mais amplo e completo do que esta fotografando. 
O seu trabalho sobre manifestações da fé, o que fica desta experiência? 
B: O trabalho "Imagens Fiéis" foi fotografado por 5 anos. Quando comecei, não sabia da grandeza da fé de nosso povo. Comecei em Juazeiro do Norte, a terra de Padre Cícero, em 1998, e me apaixonei de cara. Percebi que estava fazendo alguma coisa grande para mim e para minha fotografia, por isto foi o trabalho mais importante que fiz até agora. Ao longo dos anos, fiz 27 viagens a festas e manifestações religiosas pelo Brasil, num total de 7 estados. A convivência com as pessoas, fotografadas ou não, foi a melhor parte deste projeto, pois descobri um Brasil que eu desconhecia. Em 2003, o ensaio virou livro; "Imagens Fiéis", pela editora Cosac & Naify, o que me deu muita satisfação e alegria.

Coisas assim, como se fosse uma aventura única, a de ser fotógrafo.

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Fotos: © José Bassit (cortesia do fotógrafo. Todos os direitos reservados) 
Entrevista realizada em 2012.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Josef Koudelka: Black Triangle



Black Triangle, livro de fotografias panorâmicas de Josef Koudelka, produzidas entre 1991 e 1993, no sul da Saxônia, Alemanha, Baixa Silésia, Polônia e Boêmia do Norte, República Checa, região de mineração de carvão a céu aberto, cujos efeitos óticos são devidos à extrema densidade da poluição tóxica da atmosfera e de exploração florestal, mais de 50 por cento das florestas de coníferas foram destruídas entre 1972 e 1989. 
Koudelka fez suas primeiras fotografias panorâmicas em 1958. Mais tarde na década de 1980, aceitou participar do projeto DATAR, uma organização do governo francês, quando soube que eles tinham uma câmera panorâmica. Viajou para a Bretanha e Normandia, fez fotos em Paris, mas foi somente em Lorena, onde a reestruturação da indústria siderúrgica estava trazendo grandes mudanças para a região, Koudelka percebeu que era essa precisamente a paisagem que mais lhe interessava, observando o impacto da intervenção do homem no meio ambiente. Black Triangle, é claro, tem características que o separam de uma narrativa sobre questões ambientais. A maioria das pessoas considera esta paisagem devastada terrível. Mas, para mim, não é a paisagem que é terrível, o que é espantoso é a destruição. A destruição que fez com que a magnífica paisagem da Boêmia, formada ao longo de séculos, agora não existe mais: Acho que é trágico, mas belo. Horrivelmente belo, diz ele.
Koudelka realmente apaixonou-se pela paisagem, ou seja, que ele não teria fotografado, e ele não teria voltado várias e várias vezes para a mesma região: "Após a sua destruição, a terra lentamente renova o seu ciclo e a vida recomeça. A natureza encontra um novo equilíbrio, cria uma nova paisagem. Diferente da anterior, que agora está irremediavelmente destruída, mas em alguns casos muito interessantes. Nesse cenário, você pode ver o quão forte é a natureza. Que é mais forte que o homem." 
Koudelka fotografou ciganos na Eslováquia e na Romênia. Em 1968, documentou a ocupação soviética de Praga. Incapaz de trabalhar com liberdade na Tchecoslováquia, o fotógrafo buscou asilo político na Grã-Bretanha em 1970. "Eu sei quem eu sou. Eu não faço o que faço para alguém gostar de mim, ou para provar algo para alguém, ou para ser o melhor. Eu faço isso por mim, para minha própria satisfação. Eu quero encontrar os meus limites, para ver até onde posso ir. O máximo, que é o que sempre me interessou - o máximo de mim e o máximo dos outros."


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Fotos: © Josef Koudelka / Magnum Photos ( Black Triangle, Vesmir, Praga, 1994 / Magnum Stories, Phaidon, 2004) 
Um postal para o amigo Nuno Sousa.