Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Um retrato de Roland Barthes

(...)" Pois era precisamente esse corpo que ele detestava com mais paixão: a augusta silhueta de senador romano, que dava a impressão de enredar-se nas dobras da sua toga, o belo rosto reflexivo, que unia os bons modos de Sócrates à sabedoria de Buda, não passavam eles, aos seus olhos, de uma mistura facilmente identificável de languidez incurável de temperamento com empazinamento precoce de bon vivant. Seu espelho apenas lhe devolvia falta de energia, queixo duplo e covardia. E ele tinha horror, sem sombra de dúvida, de todas as fotografias que o expunham na imprensa aos olhos do mundo. Mas, excluindo as imagens que o representavam no papel de escritor, ele experimentava pelo contrário fortes emoções positivas (empáticas, fascinadas) diante dos vestígios do passado, até mesmo bastante recentes, deixados pelos fotógrafos de preferência amadores. Não é difícil explicar essa aparente contradição: a foto pertence ao domínio da morte, morte dos amigos, dos pais desaparecidos ou de vidas anônimas de outros e antigos tempos; morte das coisas da vida, morte do instante que passava despreocupadamente e que o clic da máquina fotográfica matou. Roland Barthes não tinha estômago para contemplar-se morto (...)." Alain Robbe-Grilet (Roland Barthes artista amador, CCBB, 1995).
Foto: © Jerry Bauer (Roland Barthes, 1970)

A imagem e seu contexto cultural

(...) "Existem culturas e sociedades com espelho e culturas e sociedades sem espelho. Existem sociedades inteiras que nunca se viram. Existem grupos humanos e sociedades que não possuem a Imagem de seus próprios corpos. E, curiosamente, são sociedades onde os corpos são tatuados ou pintados. Na realidade, existem poucas culturas de espelho. E sempre limitadas a grupos elitistas. A China conheceu o espelho feito de ferro batido; Atenas o conheceu em Roma. Mas foi preciso esperar Veneza e o século XV para a invenção da placa de cristal. (...) No século XVI, Henrique VII e Francisco I decidiram substituir a guerra das armas por uma guerra de prestígio, a rivalidade entre duas pessoas, impondo, a cada uma, uma Imagem gloriosa do outro. Construiu-se Versailles para causar assombro. Vocês conhecem o que disse Luiz XIV ao embaixador de Veneza? - "O que o surpreende mais aqui em Veneza?" O embaixador respondeu: - "É de me ver". (...) Dá-se uma revolução, chega a fotografia; todo mundo dispõe da sua imagem. É uma verdadeira revolução, no século XIX. Lembrai-vos dos Poemas de Kodak, de Cendrars, e eles celebram, justamente, a capacidade de todos os homens de dispor de sua paisagem e de sua imagem. (...) Portanto, eu digo que o problema não é somente produzir imagens, mas permitir, democraticamente, a um grande número de pessoas de dispor de sua imagem e, por consequência, da realidade." Jean Duvignaud (Imaginário Brasileiro, Tradução Rosza W. vel Zoladz, 7Letras/Faperj, 2005).
Foto: © Niklaus Walter

Blaise Cendrars: Kodak (Documentaires)

O livro Kodak, de Blaise Cendrars, pseudônimo de Frédéric Louis Sauser (1887-1961), escritor de origem suíça, foi publicado em 1924, com poemas elaborados no processo de revelação da realidade e instantaneidade da imagem fotográfica. Após a publicação do livro, Cendrars recebeu da Kodak uma carta de protesto. Primeiramente, Cendrars pensou em substituir o título Kodak por Pathé Baby, mas acabou desistindo, temendo que a poderosa Kodak, empresa com capital de não sei quantos milhões de dólares o acusasse de concorrência desleal por apelar à mesma audiência. O livro foi re-intitulado para Documentaires. Cendrars desenvolveu um sistema poético de subjetivização da realidade cujas características são o ilogismo, humor e o antiintelectualismo, portanto, poesia não é um título de um livro. Blaise Cendrars esteve no Brasil em 1924 para uma conferência em São Paulo. Escritor de espírito estimulante do Movimento Modernista, muito ligado a Paulo Prado, Tarsila do Amaral e por algum tempo, a Oswald de Andrade.
Foto: © Irving Penn (Blaise Cendrars e sua esposa, 1950)

Marc Garanger: mulheres argelinas

Muitos conhecem a história dessas imagens, a "situação fotográfica extrema" de onde nasceram: "Em 1960 o exército francês na Argélia decidiu constituir uma ficha sistemática de cada autóctone dotando-a de uma carteira de identidade francesa, Marc Garanger viu-se na obrigação de fazer desfilar diante de sua pequena câmera escura cerca de duzentas pessoas por dia. Entre a população havia evidentemente grande número de mulheres argelinas, que o dispositivo obrigava a baixar o véu diante da objetiva. Terrível desnudamento dos rostos de mulher, desprezando todas as tradições locais. Em suma, toda a violência e a cegueira do colonialismo. E, contudo, quando olhamos essas fotos de mulheres argelinas sem véu, temos de convir: jamais o menor sinal de vergonha, de fuga ou de derrota. Ao contrário, só a certeza, a força tranquila, o brilho inabalável. (...) Não apenas assumem plenamente o olhar que o ocupante faz pesar sobre elas, mas sobretudo, elas no-lo mandam de volta, elas devolvem-no a ele (a nós) mesmo (s)." Philippe Dubois (O ato fotográfico, Tradução Marina Appenzeller, Papirus Editora, 2006).
Foto: © Marc Garanger

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Robert Frank: Storylines



Fotos: © Robert Frank

Imaginário e memória

"Imagens silenciosas. "Sem que nos demos conta" - diz Baudrillard - "é uma das qualidades mais preciosas e mais originais da imagem fotográfica, diferentemente do cinema, da televisão (...) Silêncio não somente da imagem que renuncia a qualquer discurso, para ser vista e lida de algum modo 'interiormente' - mas também o silêncio no qual mergulha o objeto que ela apreende."
Jean Baudrillard, A Arte da Desaparição, Editora UFRJ, 1997 ( texto extraído do livro Boris Kossoy, Os Tempos da Fotografia, o Efêmero e o Perpétuo, Ateliê Editorial, 2007).
Foto: © Alfred Stieglitz (O terminal, Camera Work 36, 1911)

Campanha fotográfica África em Nós

Olha só que legal! Imagem fotográfica e identidade, o testemunho visual do Brasil, África em Nós, um projeto que merece ser compartilhado.
A campanha fotográfica África em Nós, criada pela secretaria de Estado da cultura de São Paulo convoca toda população paulista a participar através da fotografia, no que ela vê, sente e compreende sobre a presença e a herança africana no dia a dia. O tema é a própria África, o continente mãe. Como perceber os sinais africanos? Quais os sinais perceptíveis em nossa cultura? Cada participante deve realizar sua foto mostrando como vê e sente esta África que existe perto de nós. Visite o site da campanha www.africaemnos.com.br para ler o regulamento e participar. Fotógrafos amadores ou não podem mandar suas fotos até dia 15 de Setembro. O curador responsável é o fotógrafo renomado Walter Firmo e a organização é pela Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias.