domingo, 10 de outubro de 2010

A arte de olhar para os lados

"Olhar é dar um sentido à própria visão", observou Leonardo da Vinci. Um pássaro é um instrumento... ele abre suas asas de forma rápida e repentinamente, dobrando-as de tal maneira que o vento... levante ele. É isso que eu tenho observado no voo de um falcão jovem acima do mosteiro em Vaprio, à esquerda da estrada de Bergamo, em uma manhã de 14 de abril de 1500." Com o título The art of lookng sideways (Phaidon, 2001), o designer Alan Fletcher (1931-2006) transforma a teoria da percepção (do visual ao imaginário) em algo muito interessante, uma reflexão sobre a cegueira pelo hábito de olhar em volta, em vez de olhar com acuidade. No livro, Fletcher apresenta, sempre bem-humorado, um artigo científico intitulado O olho do sapo, um relatório detalhado de seus cérebros, conectados a dispositivos para ver o que eles veem. Para Fletcher é apenas uma questão de interferência da luz, a sombra vaga de um predador ou algo comestível voando. O universo do sapo é rastrear o mínimo necessário para sua sobrevivência. Para eles não há pôr- do- sol, nem folhas ao vento. Diante da quantidade de informações, uma situação encorajá-nos a absorver somente o que queremos ou o que é relevante para a nossa atividade diária. Em consequência, tendemos a reduzir o nosso ambiente visual - uma sinfonia eterna de cores, formas e padrões. Segundo Alan Fletcher, com efeito, o olho se acomoda até a mente acordá-lo com uma pergunta. Pois, o que vemos e o que observamos não são a mesma coisa.



Em 1955, Robert Frank cruzou os Estados Unidos fotografando bares e lanchonetes, fábricas e linhas de montagem, sanitários públicos, engraxates, os rostos desgastados dos aposentados. No Sul um xerife perguntou-lhe qual era seu negócio. "Eu estou procurando", ele respondeu. Foi-lhe dada uma hora para sair da cidade e no Arkansas passou três dias na prisão pelo mesmo crime - observação. "Olhar" foi anti-americano.
Fotos: © Robert Frank (Ranch market, Hollywood, / bar, Las Vegas, Nevada, The Americans, 1955)

2 comentários:

Giuliano Quase disse...

sempre bonito por aqui, Meg,
sempre muito bonito.

um beijo

Meg Rodrigues disse...

Obrigada. Gosto da fase de pesquisa, Giuliano, mas tenho dificuldade em revisar os textos. Uma questão de ansiedade, e na prática um grave problema.
O seu blog é uma referência. Você escreve muito bem.

Beijo