domingo, 21 de outubro de 2012

Ary Vasconcelos: samba


"Se há uma história que nunca poderá ser escrita, isto é, com todos os seus pontos obscuros perfeitamente iluminados - é a do samba", diz o jornalista, crítico, historiador e musicólogo Ary Vasconcelos (1926-2003), há quase quarenta anos pesquisando sobre o tema, em uma reportagem publicada na extinta revista Piracema, editada por Ivan Junqueira. Em 1967, dois nomes intimamente ligados à história do samba, Pixinguinha e João da Baiana, figuras assíduas no Bar Gouveia, situado na Travessa do Ouvidor, no Rio de Janeiro, forneceram a Vasconcelos toda a geografia do gênero. Cinco eram os principais redutos do samba na segunda década do século, a casa de Tia Ciata, o morro de Santo Antônio, o morro da favela, o morro de São Carlos e o morro do Castelo.
Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida, 1854-1924), era uma baiana muito festeira, dizia-se dela que gostava tanto de folguedos que inventava até aniversário para dar festa. Ary Vasconcelos foi uma das poucas pessoas que viu o rosto de Tia Ciata, através de uma fotografia bem nítida em que ela ostentava uma baiana listrada. Ele tentou, de muitas maneiras, obter a foto que estava em poder da sobrinha, a Tia Carmem do Xibuca. Um dia, Vasconcelos soube que essa fotografia fora queimada em um ritual de candomblé, pois Tia Carmem pertencia a uma seita islâmica que não permitia a divulgação de imagens.
Fotos: © Alberto Jacob / Agência JB (A partir da esquerda, Pixinguinha, João da Baiana e Donga) / ( Piracema # 1, Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, Funarte / IBAC, 1993)
Um postal para o amigo Giuliano Quase.

8 comentários:

Nuno Sousa disse...

Meg, penso que o Brasil sempre assumiu com orgulho o samba, e isso naturalmente permitiu salvaguardar a memória desse género musical tão belo e tão único. Penso que o mesmo não se terá passado com o fado português, que sobretudo no periodo pós-revolucionário foi bastante mal tratado porque se associava ( e mal) a uma imagem do passado que os portugueses não mais queriam lembrar.
interessante como a imagem nos ajuda a conhecer uma realidade tão diferente como a música.

Meg Rodrigues disse...

Sim, patrimonio nacional.
Gosto muito dessa fotografia, que com o passar do tempo se torna cada vez mais especial.

Giuliano Quase disse...

quanta satisfação, meg. vc fez começar a segunda muito bem ao som do pixinguinha. já fazia certo tempo que não ouvia esse mestre do choro.

beijão!!

Meg Rodrigues disse...

Oi, Giuliano

Há muito para se ler sobre o assunto, mas não encontrei nenhum depoimento ou entrevista sobre o conteúdo das imagens, assim como nem sempre colocam o crédito da foto (por isso deletei a fotografia de Ismael Silva num boteco do Estácio). Pixinguinha e João da Baiana sabiam das coisas e forneceram informações preciosas a Vasconcelos, por exemplo, que o samba puro, o clássico, foi uma criação da turma do Estácio (Alcebíades Barcelos, Nilton Bastos, Ismael Silva, Rubens Barcelos, Edgar e outros).

Luis Eme disse...

será possível fazer a história do samba a partir das muitas histórias que já existem, Meg.

abraço

Meg Rodrigues disse...

Sim, Luis.
Na matéria, Vasconcelos refere-se a "história oficial", a origem da palavra, quem é o verdadeiro autor do primeiro disco.

beijo

Unknown disse...

Meg
Excelente post, a foto é uma preciosidade. Fico imaginando quantas outras estão escondidas por aí.
Claudio

Meg Rodrigues disse...

Claudio,

Obrigada.
Vasconcelos reproduziu uma outra preciosidade, Pixinguinha e João da baiana na Rua do Ouvidor, acervo do IBAC. Na foto, João usa uma gravata com formato de laço.