sexta-feira, 17 de abril de 2009

Paul Valéry

(...)"Enfim, veio Daguerre. Obtém-se a visão fotográfica, que se difunde no mundo com estranha rapidez. Assiste-se a uma revisão de todos os valores do conhecimento visual. A maneira de ver se modifica e se torna exata, enquanto os próprios costumes se ressentem da novidade, que, do laboratório, passa imediatamente à prática, e introduz necessidades e usos inéditos na vida. Todo mundo terá seu retrato, favor outrora excepcional. O fotógrafo ambulante percorre os campos. (...) A História é um relato ao qual fornecemos algo que o distinga de um conto. Emprestamos a ela nossa energia atual e todos os nossos recursos de imagens, necessariamente retirados do presente. Adaptamos a ela nossas simpatias e nossas antipatias; construímos também sistemas de acontecimentos, e damos, segundo nosso coração e o poder de nosso pensamento, uma espécie de existência e de substância a personagens, a instituições, a negócios ou a dramas, cujos documentos só nos propõem um argumento verbal, às vezes dos mais sumários. Para uns, a História se resolve, portanto, em um álbum de imagens, em roteiros de óperas, em espetáculos e em situações, geralmente críticos. Entre esses quadros que nosso espírito compõe e experimenta, há os que nos oferecem fantasias, efeitos de teatro muito belos e inacreditáveis, que interpretamos às vezes como símbolos, transposições poéticas de acontecimento reais. Para outros, mais abstratamente curiosos pela História, esta é um registro de experiências humanas que deve ser consultado como se consultam os anais da meteorologia, e com o mesmo cuidado de descobrir no passado alguma coisa do futuro." Trechos do discurso de 1939 do poeta francês Paul Valéry (Paul-Ambroise Valéry Toussaint, 1871-1945), diretor da Academia Francesa, em comemoração à invenção da fotografia, intitulado Centenaire de la photographie. (Inimigo Rumor 20, Tradução Júlio Castañon Guimarães, Cosac Naify, 2008)

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