sexta-feira, 24 de outubro de 2014

René Burri (1933-2014)


Em um texto de 1957, o fotógrafo suíço René Burri descreveu seu encontro com Pablo Picasso (1981-1973). Como diz o fotógrafo Claudio Versiani "a história que conta uma fotografia". 
Em 1953, René Burri, um jovem estudante de arte em Zurique, estava em Milão, na Itália, quando foi ver uma exposição de Picasso. O painel Guernica (1937) estava em exposição no Palazzo Reale, antigo palácio real que fora bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial, e apesar de terem refeito o telhado, nas paredes havia marcas da guerra. Burri sente grande admiração pela pessoa de Picasso, o homem por trás do artista:" Vi pessoas chorando. Foi emocionante. Picasso mudou a minha vida". Em Zurique, Burri mostra as fotografias da exposição a um de seus professores, o designer gráfico Alfred Willimann, que sugere o projeto de um pequeno livro. O passo seguinte foi a impressão de três exemplares, um livro para Willimann, um para Burri e o outro foi para o arquivo da escola. Dois anos mais tarde, Burri conhece Daniel-Henry Kahnweiler, colecionador e marchand que trabalhou com Matisse e Braque. Esse encontro casual ocorreu no café Select, em Zurique. O fotógrafo aproveita a sorte grande e pergunta, então, se Kahnweiler poderia mostrar seu livro a Picasso. Ele diz que sim. Quando já estava certo de que não iria obter resposta, recebeu uma carta: "Caro Sr. Burri, Pablo Picasso gostou muito do seu trabalho, mas gostaria que soubesse, ele perdeu o livro. Caso eu tenha alguma novidade, entrarei em contato. E não teve mais notícias." Burri se associou à Magnum em 1955, ano em que ficou vários dias à espreita para fotografar Picasso. No estúdio em Paris, seu secretário Jaime Sabartés lhe dizia simplesmente, deixe-me ver o que posso fazer para ajudá-lo. Em 1957, a revista Holliday o convida para fazer uma série de fotografias na Espanha. Hospedado em um hotel de luxo na praia em San Sebastián, Burri pega um jornal local e vê o seguinte artigo: Picasso vai para as touradas. Burri dirigi a noite toda, parando apenas para um café. Chega em Nimes na manhã seguinte: "Na arquibancada fiz um gesto com minha câmera para saber se Picasso consentia em ser fotografado, ele acenou com a cabeça para dizer que estava tudo certo. Eu mostrei as fotos para o meu melhor cliente, a revista Du. Eles estavam fazendo uma matéria sobre Picasso e tinha um outro fotógrafo fazendo as reproduções de sua obra, então me juntei a ele em uma visita à Villa La Californie, em Cannes. Eu ainda tinha que esperar, Sabartés poderia dizer: Bem, ele está ocupado. Quando finalmente ele me deixou entrar, vejo Picasso pegando um pedaço de papel e transformando-o em algo incrível, como um mágico. Fiz uma sessão de fotos com ele, Jaqueline e as crianças. Em determinado momento, eu disse a mim mesmo, René, seu pequeno livro deve estar em algum lugar nessa bagunça! Picasso nunca jogava nada fora. Enquanto olhava ao redor, me perguntando onde poderia estar escondido, Picasso olhou para mim e disse: Diga-me o que você estava pensando. Aquilo foi muito intenso, como se ele pudesse ler a minha mente, e eu me senti como uma criança apanhada com a mão na botija. Por um segundo, pensei em contar-lhe toda a história sobre o livreto, mas não o fiz."


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"Fotografei em Berlim, Chipre, Egito, Peru, Japão, Cuba. Fotografei a Guerra dos Seis Dias, em Israel, e os norte-americanos na Coréia. Fotografei personalidades, como Maria Callas, Le Corbusier e Che Guevara. Mas de certa maneira, meu encontro com Picasso foi um divisor de águas. Percebi que eu não sou um fanático por foto. Tomando-se a fotografia como uma forma de estabelecer-me na vida. Tive sorte e foi uma benção para mim. Mas há um outro nível de fotógrafo com sua propensão a supervalorizar o trabalho - a difícil competição para chamar a atenção do assunto; onde tirar fotos é como usar uma arma. Sem dúvida, um nível de profissionalismo que eu não desejo seguir."

Fotos: © René Burri / Magnum Photos (Guernica em exibição no Palazzo Reale, Milão, 1953 / Villa La Californie, Cannes, 1957 / Revista Du, agosto de 1958 / Magnum Stories, Phaidon, 2004)
Um postal para o amigo Claudio Versiani.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente post. Faz jus ao valor deste grande fotógrafo.