sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Galeria: Wayne Sorce



Fotos: © Wayne Sorce (Chicago, c.1970)

Presença-ausência

"Pia Gilbert, nascida na Alemanha do Sul, entrou num taxi em Nova York. O motorista disse: Sou um muçulmano negro. Ela replicou: Lamento ouvi-lo. A senhora não crê na verdade? Isso não é verdade. A senhora não gosta dos negros? O que o faz pensar que eu não sou uma negra?" John Cage (De segunda a um ano, 1985).
"Se a fotografia não pode ser aprofundada, é por causa de sua força de evidência. Na imagem, o objeto se entrega em bloco e a vista está certa disso - ao contrário do texto ou de outras percepções que me dão o objeto de uma maneira vaga, discutível, e assim me incitam a desconfiar do que julgo ver. Essa certeza é soberana porque tenho o vagar de observar a fotografia com intensidade; mas também será inútil prolongar essa observação, ela não me ensina nada. É justamente nessa interrupção da interpretação que se encontra a certeza da Foto: esgoto-me em constatar que isso foi; para qualquer um que tenha uma foto na mão, está aí uma "crença fundamental", uma "Urdoxa", que não pode ser desfeita por nada, a não ser que me provem que essa imagem não é uma fotografia. Mas também, infelizmente, é na proporção de sua certeza que nada posso dizer dessa foto." Roland Barthes (A câmara clara, 1980).
Foto: © Bruce Davidson (Brooklyn, NY, 1959)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Jim Marshall



A carreira de Jim Marshall começou nos anos de 1960, com a venda de uma foto da cantora Bev Kelly, reproduzida na contracapa do álbum, para a gravadora Riverside Records, quando frequentava os nightclubs de jazz, em Fillmore distrito de São Francisco. A partir de então, Marshall Trabalhou como um dos principais fotógrafos em festivais como os de Monterey, Woodstock e foi o único profissional que teve acesso aos bastidores no último concerto dos Beatles. Marshall não teve qualquer formação em fotografia. Sempre acompanhado de duas câmeras Leica M2 e M4, documentou a trajetória dos músicos durante os ensaios e shows de jazz, country, folk, blues, rock e em alguns casos em suas vidas pessoais. Seus trabalhos tem sido publicados em todo o mundo e fazem parte da coleção permanente no museu Smithsonian.
Fotos: © Jim Marshall (Jimi Hendrix, Monterey Pop Festival, 1967/ Miles Davis, NY, 1963/ Ray Charles, NY, 1962). Assista: YouTube.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Josef Sudek por Timm Rautert

O fotógrafo alemãoTimm Rautert visitou Praga na primavera de 1967, um jovem fascinado com o trabalho de um dos mais importantes fotógrafos do século XX, Josef Sudek. Rautert havia iniciado os estudos de fotografia, aluno de Otto Steinert na Folkwang School of Design, em Essen, quando teve a oportunidade de acompanhar Sudek enquanto fotografava os jardins da cidade. Ele conheceu de perto a revelação das fotos e conversou com Sudek em seu apartamento. Rautert descreve o fotógrafo como um homem tranquilo, que viveu de forma modesta e, por vezes alegremente mesmo passando o dia inteiro apenas com um pão e cebolas. O encontro e o testemunho de Timm Rautert estão reunidos no livro Josef Sudek, Praga 1967, ensaio com 42 fotografias em preto e branco, lançado em 2008 pela editora Steidl.
Foto: © Timm Rautert

Josef Sudek

Em 1920, Josef Sudek (1896 - 1976) um estudante de fotografia sob a orientação de Karel Novák, torna-se membro do Clube de Fotógrafos Amadores de Praga. Através do Clube, Sudek participa de várias exposições e familiariza-se com importantes fotógrafos do passado como Drtikol e Bufka, da República Checa. Em 1924, juntamente com Jaromir Funke e outros fotógrafos fundou a Associação Checa de Fotografia. Ainda nos anos vinte, Sudek fez uma série de fotos da reconstrução da Catedral de S. Vitus e fotografou um amigo em uma casa para deficientes vítimas da guerra. Estas imagens seriam seus últimos trabalhos com a presença da figura humana. Trabalhou como co-editor das revistas Panorama e Zijeme, em parceria com a editora que passa a publicar seus trabalhos de publicidade e fotografias de naturezas mortas. A partir de 1940, usou câmeras de grande formato para muitas das fotografias em estúdio e, sobretudo de paisagens. Fotografou o seu jardim, os jardins dos amigos, os jardins de Praga.
Foto: © Josef Sudek

sábado, 24 de janeiro de 2009

Walter Firmo

"Desde a década de 60 fotografa a comunidade negra brasileira, prestando serviços a uma causa social que considera insuspeita. Já híbrido de José e Maria - seus pais - trabalha esta sociedade silenciosamente na descrição de um monge, sem nenhum alarde, induzindo orgulho, altivez e dignidade aos negros brasileiros. Este anseio de Justiça remonta aos idos do Irajá, quando gerado, e, nascido em São Cristóvão, menino ainda, viveu nas portas abertas das ruas de Cordovil, Madureira, Parada de Lucas, Vila Rosaly, Vaz Lobo, Oswaldo Cruz, Marechal Hermes, Coelho Neto, Bangu, Nilópolis e Cachambi - toda sedução, enlevo e magia, sob o sol e estrelas suburbanas, horizontes encantados no seu olhar infantil. (...) Onde cada casa amanhecia ressurgindo um cenário de aleluia permanente no sábado de todos os dias e a esperança flanava solta nas paredes de cores fortes, soberba ficção alegórica, qual uma ala de escola de samba onde cada morador "vivia" seu personagem: pescador, fuzileiro, alfaiate, marinheiro, costureira, lavadeira, office-boy, mãe de santo, balconista, carpinteiro, motorista, motorneiro. (...). A fotografia é ainda oxigênio, natural perfume, brilho farto das meninas dos seus olhos" Walter Firmo Guimarães da Silva
(Antologia Fotográfica, Dazibao, 1989).
Foto: © Walter Firmo

Formas abstratas


"Pode ser que o que foi dito contra a réplica mecânica das coisas físicas e sobre a interpretação visual do significado através da forma abstrata organizada tenha parecido aplicar-se apenas à arte. (...) A exatidão mecânica de representação pareceria ser a única obviamente exigida. E, no entanto, isto não acontece. O registro pela fotografia, o método mais fiel de feitura de imagem, na realidade não substituiu o fazer humano e por boas razões. A fotografia é na verdade mais autêntica na reprodução de uma cena de rua, de um habitat natural, de uma textura, de uma expressão momentânea. O que importa nestas situações é a relação e a disposição acidental, a qualidade total, e o detalhe completo, ao invés da precisão formal. " Rudolf Arnheim (Arte e percepção visual, uma psicologia da visão criadora, Edusp, 1980).
Aaron Siskind (1903-1991), conhecido por sua profunda contribuição à fotografia expressionista abstrata, foi um mestre das relações de figura/fundo. As fotografias reproduzidas, Chicago 30 (1949) e Peru 222 (1983) desafiam o observador a escolher entre a figura e o fundo, já que a tensão entre o preto e o branco varia constantemente.
Fotos: © Aaron Siskind

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

No ateliê de Mondrian

"Tudo era impecavelmente branco, como num laboratório. Vestindo um guarda-pó leve, com seu rosto bem escanhoado e seus óculos pesados, taciturno, Mondrian parecia mais um cientista ou clérigo do que um artista. O único alívio para todo aquele branco eram grandes passe-partouts, retangulos amarelos, vermelhos e azuis, pendurados em arranjos assimétricos em todas as paredes. Perscrutando-me com seus óculos, ele notou meu olhar e disse: "Arranjei-os para alegrar o ambiente." © David Sylvester (Texto publicado na revista Studio International em 1966, com o título "Uma tulipa com folhas brancas").
Em 1926, André Kertész fez esta fotografia no ateliê de Piet Mondrian, em Paris. Kertész instintivamente captou a simetria ditada pela composição das pinturas. Décadas mais tarde, ainda recordava-se da surpresa ao ver que no vaso havia uma flor artificial.
Foto: © André Kertérsz (1894-1985)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Acontecimentos extraordinários


Hoje, todos os jornais publicaram matérias sobre a festa da posse de Barack Obama. O jornalista Elio Gaspari (caderno Opinião, O Globo) oferece-nos, então, visões da história americana, "um ciclo que Obama fechou gloriosamente, começou quando uma vendedora chamada Rosa Parks entrou num ônibus, sentou no assento destinado aos brancos e não quis se levantar." Gaspari lembrou que próximo da escadaria onde Obama tomou posse, está guardado um par de mocassins de Juanita T. Williams, uma professora negra, ativista dos direitos civis. Ela usava os sapatos em 1965, quando participou da marcha de cinquenta e quatros kilometros, de Selma a Montgomery. "Viviam em Selma (Alabama) 15 mil negros, mas só 156 deles podiam votar." Como Elio Gaspari colocou, "não eram sapatos gastos, eram História." Da mesma forma, o sapato do iraquiano Montadhar Al-Zaidi faz parte de uma outra história americana.
Foto: © Matt Herron (the march from Selma to Montgonery, 1965)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Martin J. Dain

"Pareceu-lhe que nenhum deles olhara o estranho de maneira especial até ouvir seu nome. Mas assim que o ouviram, era como se houvesse alguma coisa naquele som tentando lhes dizer o que esperar; que ele trazia consigo a própria advertência inelutável, como uma flor o perfume, ou uma cascavel o chocalho. Só que ninguém ali teve discernimento suficiente para reconhecê-lo." Trecho do livro "Luz em Agosto", do escritor norte-americano, William Faulkner (1897-1962). Martin J. Dain, um admirador da obra de Faulkner, foi um dos poucos fotógrafos que teve acesso ao autor em sua fazenda em Oxford, Mississipi, nos seus dois últimos anos de vida. Um homem simples (que aparece na foto como um maltrapilho), ganhou dois Prêmios Pulitzer e o Nobel de literatura de 1949. Dain publicou o Faulkner's World, uma coletânea de fotografias da paisagem do Condado de Lafayette, inspiração para muitos dos livros, e imagens do escritor que dizia só precisar de uma bebida, do tabaco e o papel para escrever: "a única responsabilidade do escritor é para com sua arte."
Foto: © Martin J. Dain (William Faulkner, 1962)
Luz em Agosto (Cosac Naify, Tradução Celso Mauro Paciornik, 2007)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Aurélio González

Imagens históricas das manifestações políticas contra o golpe militar de 1973 em Montevidéu, Uruguai, estariam perdidas se não fosse o esforço do fotógrafo Aurélio González. Nascido em 1931, no Marrocos, chegou no Uruguai em 1952, fugindo do regime de Franco, na Espanha. Fotógrafo do jornal comunista EL Popular, González registrou a repressão política, a luta popular e as greves. Depois do golpe, com a ameaça da censura e o fechamento de seu jornal, ele escondeu cerca de 60.000 negativos em um local isolado do prédio onde trabalhava. Em 1976, González foi exilado e a saga na busca pelas fotografias começaria em 1986, quando retorna e não encontra os negativos, retirados do local durante as reformas do prédio. A busca só termina em 2006, quando seu relato chega aos ouvidos do operário que escondera as latas, enterradas no fundo do seu quintal. As fotografias, hoje declaradas patrimônio histórico do Uruguai, estão arquivadas no Centro Municipal de Fotografia, na capital e rendeu o filme documentário, de 2007, Al pie del árbol blanco, de Juan Alvarez.
Fotos: © Aurélio González

Galeria: Angelo Guarracino



Fotos: © Angelo Guarracino (www.angeloguarracino.com)