segunda-feira, 29 de março de 2010

Vilém Flusser: "pós-história"

"A inversão de história em espetáculo (...), por exemplo, nos casos em que casamentos, saques, revoluções ou suicídios são feitos em função da presença de câmeras. Isto é a "pós-história" no significado exato do termo. Os atos não mais se dirigem contra o mundo a fim de modificá-lo, mas sim contra a imagem, a fim de programar o receptor da imagem. Isto é o fim da história, porque a rigor nada mais acontece, porque tudo é doravante espetáculo eternamente repetível. A reta da história se transforma no círculo do eterno retorno. As imagens passam a ser as barragens que acumulam eventos a fim de recordá-los em obstáculos repetitivos, isto é, em programas. Não estamos mais mergulhados na correnteza histórica, mas sim nos quedamos sentados, solitários, face às imagens que nos mostram programas; tais programas estranhamente nos entusiasmam, em vez de nos causar tédio insuportável. (...) Desde já a nossa cobiça de sensações (queremos imagens novas toda noite) sugere que o tédio começa a se manifestar, e que o próprio progresso precipitado se vai tornando tedioso.
A circulação entre imagem e homem que ameaça cair em entropia, tal inversão do nosso estar-no-mundo em estar-face-à-imagem."
Vilém Flusser (O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade; Revisão técnica Gustavo Bernardo. São Paulo: Annablume, 2010, p.59 e 62).
Foto: © Clemens Kalischer (Nova York, 1947)
Texto gentilmente cedido. Todos os direitos reservados a Annablume Editora.

domingo, 28 de março de 2010

Alfred Wertheimer

A série de fotografias de Elvis Presley (1935-1977) feitas por Alfred Wertheimer teve início em 1956, quando um produtor da RCA Records telefonou para pedir-lhe para documentar a primeira apresentação do cantor no programa de televisão Stage Show. Wertheimer, fotógrafo alemão, era ainda criança quando sua família mudou-se para o Brooklyn, Nova York, não fazia a menor ideia quem era o novo astro do Rock'n Roll. Antes de dedicar-se ao fotojornalismo, Wertheimar foi fotógrafo do Signal Corps durante o serviço militar e em seguida, por um breve período fotografou para a indústria de moda. Wertheimer ficou impressionado com o talento de Elvis, na época com 21 anos de idade, lançava seu primeiro disco e iniciava a carreira no cinema. Wertheimer acompanhou Elvis durante quatro meses, realizando cerca de 450 fotografias, em cada aspecto de sua carreira e também em seus momentos mais íntimos com sua família. Enquanto Alfred Wertheimer fotografava, Elvis Presley nem percebia sua presença, como nesta fotografia do cantor se preparando para subir ao palco, sem pose, apenas concentrando-se em ajeitar os cabelos, o que viria a ser sua marca registrada.


"Elvis has left the building." Frase usada por locutores ao fim de cada apresentação para dispersar os jovens excitados. 
Fotos: © Alfred Wertheimar (capas: Randon House, 1979 / The Five Mile Press, 2007 / Elvis Presley, Nova York, 1956)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Inge Morath: Saul Steinberg

Le Masque teve a primeira edição publicada por Maeght Editeurs, Paris, em 1966. Reunindo trabalhos do artista Saul Steinberg (1914-1999), fotografados por Inge Morath (1923-2002), com textos de Michel Butor e Harold Rosenberg. Máscaras desenhadas em sacos de papel de supermercado, um conjunto complexo de "retratos" (a palavra é usada entre aspas porque nunca é o retrato de um "modelo" em particular) permitia às pessoas em estado de tensão, e, na visualização de Steinberg, ele se refere, em especial, aos americanos, colocar um sorriso em seus rostos, com a aparência da eterna felicidade. No livro, Steinberg declara seu nervosismo ao ser fotografado, e da sensação de relaxamento no interior da máscara, a ilusão de uma fisionomia constante para a câmera. Em fotografia, um aspecto fundamental do retrato é a identidade do retratado, seu sentido de presença, e Steinberg admite: " eu usei a fotografia de uma maneira contrária ao seu propósito."

Fotos: © Inge Morath / Magnum Photos (da série "máscaras", 1962).

terça-feira, 23 de março de 2010

O olho e a galáxia

"O senhor Palomar, tendo sabido que este ano durante todo o mês de abril os três planetas 'externos' visíveis a olho nu (mesmo por ele, que é miope e astigmático) estarão 'em oposição', portanto visíveis por toda a noite, apressa-se em subir no terraço. (...) O senhor Palomar, talvez porque tenha o mesmo nome de um observatório famoso, goza de certa amizade entre os astrônomos, e foi-lhe permitido aproximar o nariz da ocular de um telescópio de quinze centímetros, ou seja, bastante insignificante para a pesquisa científica, mas se comparado aos seus óculos, já encerrando uma grande diferença. (...) 'Se o pudessem ter visto como agora o vejo', pensa o senhor Palomar, 'os antigos iriam crer que estavam erguendo o olhar para o céu das ideias de Platão. (...) Na noite seguinte, volta para o seu terraço a fim de ver os planetas a olho nu: a grande diferença é que agora é obrigado a levar em conta as proporções entre o planeta, o resto do firmamento esparso no espaço escuro por todos os lados e ele que olha, coisa que não ocorre se a relação é entre o objeto separado planeta posto em foco pela lente e ele sujeito, num ilusório face-a-face. Ao mesmo tempo ele recorda de cada planeta a imagem detalhada vista na noite anterior e procura inserir naquela mancha minúscula de luz que perfura o céu. Assim espera haver se apropriado de fato do planeta, ou pelo menos do quanto de um planeta pode entrar em um olho." Italo Calvino/ Palomar; Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Foto: © Paul Caponigro (Galaxy apple, Nova York, 1964)

domingo, 21 de março de 2010

Luiz Maximiano


"Ali se vê o melhor e o pior da condição humana". Reportagem de Luiz Maximiano sobre La Chureca, o maior depósito de lixo na América Central, o aterro municipal de Manágua, Nicarágua. Cerca de 1500 pessoas trabalham no local: "Nunca vou me esquecer da família de Julio Cesar, que aparece em várias das fotos. Ele tem a mesma idade que eu, 31, e nasceu e viveu ali toda a sua vida trabalhando com o lixo. Ele me convidou a entrar em sua casa e passei uma tarde com ele. Mesmo todo sujo, mesmo sua casa sendo um barraco todo caindo, seu lar e sua família transbordava de dignidade. Ali não havia vergonha pela sujeira ou pela falta de bens, mas havia orgulho por conseguir criar três filhos e se manter unidos em meio a tanta miséria. É uma experiência que toda pessoa deveria passar. Te faz repensar 90% das coisas com que a gente se ocupa e que no fim do dia não são nada". Em 2007, Maximiano recebeu o prêmio Canon aos melhores do Fotojornalismo com menos de 30 anos de idade; e indicado ao World Press Photo Masterclass e PDN's 30. "O fotojornalismo tem o poder de te parar e te fazer refletir numa imagem que representa a vida da forma mais clara e espontânea possível. Não há pose, não há nada inventado. É a própria limitação da fotografia que a faz tão contundente pois ela está ali... parada, estática... você olha e ela vai falando com você. No outro dia você olha de novo e tem outra reação. Ela congela em 1/125 de segundo a realidade e transforma aquilo numa janela onde convergem metáforas, fatos, emoções e opiniões. Acho isso fantástico. É talvez a única via onde arte e jornalismo se encontram". Nas imagens de Luiz Maximiano vemos, sobretudo, suas escolhas no momento em que fotografou em La Chureca, cujo resultado, permite descobrir beleza e significado onde menos esperamos encontrá-los.

Esta e outras fotos de Maximiano foram reproduzidas num mural, pintado por artistas voluntários da ONG Love, Light and Melody. Um gesto simples e ao mesmo tempo importante para a comunidade: "traz um tipo de validação para o que fazem". "Todas as pessoas que fotografei eu pedi permissão. Não fotografei ninguém que me disse não. Uma foto nunca é tirada. Uma foto que significa algo pra mim é sempre dada e as pessoas foram muito graciosas comigo". Recentemente, este trabalho foi selecionado dentre mais de 1000 participantes para ser exibido no Festival for Young Photojournalism em Hannover. Fotos: © Luiz Maximiano (La Chureca, Manágua, 2008) (http://www.luizmaximiano.com/). Fotografias gentilmente cedidas. Todos os direitos reservados a Luiz Maximiano.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Galeria: Jeanloup Sieff


Fotos: © Jeanloup Sieff

Nobuyoshi Araki

Nobuyoshi Araki chamou a atenção da crítica como sendo talvez o fotógrafo mais inovador, produtivo e ousado do Japão. Graduado em fotografia e cinema pela Universidade de Chiba. Em 1963, começou a trabalhar para a agência de publicidade Dentsu. Araki tem mais de 200 livros publicados no Japão e no exterior. No início de sua carreira produziu uma série de livros usando uma fotocopiadora, enviados para seus amigos e pessoas selecionadas aleatoriamente na lista telefônica. Yoko my love, publicado em 1978, um diário em torno das fotografias de sua esposa Yoko Araki (entre 1968 e 1977). No prefácio, declarou que o ponto de partida de seu trabalho como fotógrafo foi o amor, tendo Yoko como espelho de si mesmo. Antes, em 1971, foi publicado seu livro Sentimental Journey, um retrato íntimo de sua lua de mel. E, em 1990, Winter Journey, fotografias dos últimos dias de vida de Yoko.

Em quatro décadas, Araki foi dos primeiros fotógrafos a explorar uma narrativa visual aparentemente proibida: sexo e morte. Em várias ocasiões, a polícia suspendeu mostra de fotos e Araki foi preso. Um tabu, a julgar pelo efeito “fora de foco” nas gravuras Shunga, reproduzidas no site da Fundação Japão, presentes desde o início do período Edo (1603 a 1868), considerado a primavera da arte erótica no Japão. O trabalho de Nobuyoshi Araki colocou-o na vanguarda como o artista influente da nova geração de fotógrafos japoneses.
Fotos: © Nobuyoshi Araki (http://www.arakinobuyoshi.com/)

terça-feira, 2 de março de 2010

Dennis Stock


Pode-se lembrar que todo fotógrafo tem, uma ou várias, fotos mais conhecidas. No caso de Dennis Stock (1928-2010), as fotografias de James Dean. Mas há parte de sua obra produzida longe da cidade, de artistas famosos de Hollywood e de músicos de jazz.
"A reportagem sobre os Sons of silence é um exemplo do que eu mais gosto de fazer como fotógrafo: produzir imagens que, com um toque de humor e de beleza, constituem versos, que reunidos formam um poema”, diz Stock, referindo-se aos motoqueiros reunidos no Colorado. Stock pediu para ficar com eles e foi nomeado membro de honra do grupo, apesar de só ter andado numa moto uma vez na vida – na garupa de James Dean. Nos anos 60 e 70, o fotógrafo compartilhou os ideais do movimento hippie, a liberdade dos motoqueiros e o gosto pela aventura dos que atravessavam as fronteiras do território dos Estados Unidos. Dennis Stock se sentiu atraído por aquilo que eles tentavam realizar, e, essencialmente, estar na estrada, próximo da natureza, livre.

Fotos: © Dennis Stock / Magnum Photos (Road people, 1971)