"Os povos primitivos não conheciam a necessidade de dividir o tempo em filigramas. Para os antigos não existiam minutos ou segundos. Artistas como Stevenson ou Gauguin fugiram da Europa e aportaram em ilhas onde não havia relógios. Nem o carteiro nem o telefone apoquentavam Platão. Virgílio nunca precisou correr para pegar um trem. Descartes se perdeu em pensamentos nos canais de Amsterdã. Hoje, porém, nossos movimentos são regidos por frações exatas de tempo. Até mesmo a vigésima parte de um segundo começa a não mais ser irrelevante em certas áreas técnicas."© Paul Valéry (The outlook for intelligence, 1989)
Foto: © William Klein
"As novas mídias orientam-se pela ação, não pela contemplação. Pelo momento, não pela tradição. Sua relação com o tempo é completamente oposta àquela da cultura burguesa, que quer posse, ou seja, duração e, se possível, eternidade. Objetos que possam ser acumulados e leiloados não são produzidos pelas mídias. Elas desintegram "a propriedade espiritual" e liquidam a "herança", isto é, a transmissão específica de classes do capital imaterial. Com isso não queremos dizer que elas não têm história ou que contribuem para o aniquilamento da consciência histórica. Ao contrário, pela primeira vez elas permitem fixar material histórico de tal forma que possa ser trazido ao presente a qualquer instante. Disponibilizando esse material para fins do presente, elas evidenciam ao usuário que o registro da história é sempre manipulação. Entretanto, a memória que as mídias mantém disponível não é circunscrita a uma casta de eruditos: é social. A informação arquivada está acessível a todos, e este acesso é determinado pelo momento tanto quanto o registro (...)." © Hans Magnus Enzensberger (Baukasten zu einer Theorie der Medien, 1970)Foto: © W. Eugene Smith (1918-1978, Iwo Jima, 1945)
"Em algum lugar da Holanda vivia um homem culto. Ele era um orientalista e era casado. Um dia, embora tivesse sido chamado, não veio para o almoço. Sua esposa o espera desejosa, olhando para a comida, e quanto maior a demora menos ela consegue compreender o seu não-aparecimento. Finalmente, ela resolve ir até o seu gabinete de estudo e exortá-lo a vir. Lá está ele sentado, solitário, em seu lugar de trabalho - absorto em seus estudos orientais. Ela se debruça sobre ele, põe o braço sobre os seus ombros, espia o livro embaixo e, em seguida, olha para ele e diz: "Caro amigo, por que você não vem comer?". O estudioso mal atina, talvez, o que foi dito, mas olhando para a esposa, responde: "Bem, minha menina, almoçar agora está fora de questão: veja esta vocalização que eu nunca vi antes. Várias vezes já deparei com citações desta mesma passagem, mas nunca assim. Olhe para este ponto aqui. É o bastante para levar qualquer um à loucura". A esposa o fita com um meio sorriso, como a reprovar que um ponto tão minúsculo pudesse perturbar a ordem doméstica. "Não vale a pena perder o fôlego com isso". Dito e feito. Ela dá um pequeno sopro, e, vejam, a vocalização desaparece, pois o ponto notável não passava de um grão de rapé." Sören Kierkegaard (In Parables of Kierkegaard, 1978). Em fotografia, "nós habitamos um espaço entre ceticismo, prazer e confiança, a partir do qual podemos ler as imagens documentais com modos mais complexos."© Derrick Price (A Critical Introduction, 1997). Foto: © Robert Doisneau (1912-1994)
O Brasil é o único país do mundo que tem a sua produção de ferro-gusa movido a carvão vegetal. Em 22 de abril de 1999, Claudio Versiani documentou o trabalho desumano dos carvoeiros e a devastação da mata, instalados nos grotões da região do Grão Mogol, norte de Minas Gerais. São carvoeiros que ainda utilizam os primitivos fornos de argila, expostos a todo tipo de doenças e acidentes; a retirada e a queima da madeira no processo de carbonização é altamente perigoso. Os contrastes do nosso país, a realidade de alguns brasileiros nas fotografias de Claudio Versiani, jornalista há 30 anos, formado pela PUC MG. Repórter fotográfico de O Globo, Isto É, revista Veja e editor de fotografia do Jornal Correio Braziliense. Versiani recebeu prêmios nacionais e internacionais como o Líbero Badaró, Nikon Awards e o Abril de Fotojornalismo.
Fotos: © Claudio Versiani (http://www.cversiani.com/)
(...)"A fotografia reivindicava ser capaz de criar registros objetivos, científicos, que eram livres do preconceito da imaginação humana. Fotografias cuidadosamente planejadas e construídas foram consumidas como se fossem imagens não mediadas e oferecessem um reflexo neutro do mundo. Elas eram, entretanto, imagens distantes de serem transparentes e desapaixonadas do mundo." © Derrick Price (A Critical introduction, 1997) Foto: © Russell Lee (1903-1986)
(...) "Em princípio, a fotografia se distingue pelo fato de que a cada ponto da superfície-imagem corresponde um ponto que lhe é exterior. (...) Toda fotografia exibe - "por si própria" - um sistema de coincidências, e como se sabe, sobre estas coincidências repousa em última análise a possibilidade de experiência do mundo real. (...) Esta limitação artística da informação estética da fotografia espelha-se no fato de que, sempre que a fotografia proporciona efetivamente o belo artístico, ela o faz como belo artístico generalizado no sentido de forma e estrutura, ou, em termos hegelianos, como "eco" de uma beleza escolhida da natureza ou de um belo artístico escolhido. Enquanto que a pintura não possui necessariamente um problema do mundo exterior, podendo ser uma representação ou imitação de mundos possíveis, não meramente reais, a fotografia, em princípio, tem sempre que lidar com um "problema do mundo exterior". Existe sempre um mínimo, pelo menos um mínimo desse mundo exterior na fotografia; absoluta abolição do mundo lhe é impossível. (...) Será talvez a consciência desse fato que nos dá a impressão de que a novidade e a originalidade de uma informação estética, em síntese: sua surpreendente inovação, estão mais próximas, como princípio, na pintura do que na fotografia."
© Max Bense (Pequena Estética, 1971)Foto: © André Kertész
Nascido em Kiev, Ucrânia, Jack Delano (1914-1997) emigrou em 1923 para a Filadélfia. Em 1940, participou com outros fotógrafos americanos da missão Farm Security Administration, criada em 1935 (ver post FSA). Assim, Delano viajou por todo os Estados Unidos documentando a cultura americana no período da Grande Depressão. A foto reproduzida foi feita em 1941, na prisão de Greene County, na Geórgia. O prisioneiro que aparece tocando violão é Eugene "Buddy" Moss (1914-1984), famoso guitarrista de blues. Delano produziu uma série de fotos desses prisioneiros, talvez embalado pelo som da música, sobretudo pela condição da comunicação musical que também fazia parte da sua vida. Jack Delano produziu fotografias memoráveis e compôs obras clássicas de vários tipos: orquestral, de câmara, para ballet e, quando mudou-se para o Porto Rico, incorporou a técnica eletrônica em suas composições. Foto: © Jack Delano

Em 1932, Hans Finsler (1891-1972) iniciou o primeiro curso de formação profissional para fotógrafos na Escola de Artes e Ofícios de Zurique, Suíça. Finsler foi para a Alemanha aos trinta anos, onde conheceu a Bauhaus de Weimar, que na década de 1920, experimentava uma nova estética. Como historiador de arte na Escola de Halle, seu trabalho exigia reproduções e fotografias de arquitetura. Foi assim que desenvolveu os princípios e as técnicas da fotografia de objeto, da qual seu tornou mestre e um dos mais importantes representantes do chamado "New Vision". Nos seus vinte e cinco anos de atividade pedagógica, Finsler influenciou uma geração de fotógrafos tais como René Burri, Werner Bischof, Ernst Scheidegger e René Groebli. A respeito da evolução da arte de ver por intermédio da fotografia, Hans Finsler escreveu: "Tornou-se possível, até certo ponto, comparar a realidade a si mesma. Podemos controlar o que vemos. O processo visual, o alcance da vista, a qualidade e a tendência do objeto visto, tudo isto pode ser analisado através da fotografia. Já que não podemos afirmar que vemos o que fotografamos, poderíamos talvez dizer que fotografamos o que vemos. A fotografia é um testemunho do nosso comportamento em relação ao mundo visual."
Foto: © Hans Finsler