segunda-feira, 30 de março de 2009

O retrato de Dora Maar

A maioria dos retratos realizados por Picasso de Olga Koklova e Marie-Thérese Walter são traçados com curvas cheias e suaves. Os retratos de Dora Maar, entretanto, mostram uma face devastada, machucada, distorcida. "São todas faces de Picasso, nenhuma é Dora Maar", foi mais tarde o comentário de Dora Maar. A história das lágrimas de Maar não termina nem com Guernica, nem com Mulher chorando. Como Tina Modotti, sua contemporânea, Maar era uma fotógrafa talentosa. Embora Picasso tenha usado esse talento para documentar a própria obra e tenha ordenado que ela fotografasse, por exemplo, o processo de criação de Guernica em mais de cem instantâneos, a fotografia era para ele uma arte "irrealizada". (...) Mesmo que existam retratos fotográficos feitos pelo próprio Picasso, ele aparentemente acreditava que a fotografia não lhe permitia, como artista, a usurpação do modelo no grau permitido pela pintura ou a escultura. Em certo sentido, tinha razão. Examinando uma fotografia primitiva de uma lavadeira de Newhaven, o teórico cultural Walter Benjamin observou em 1931 que ali estava "algo que não atesta apenas a arte do fotógrafo (...), algo que não deve ser silenciado, algo que requer o nome da pessoa que então vivia, que mesmo agora ainda é real e jamais perecerá inteiramente na arte". Para Picasso, essa morte era essencial: o corpo tinha de morrer antes de ser cortado e ressuscitado à la Frankenstein. "Para Picasso, a fotografia se agarrava demasiado amorosamente à carne viva." Alberto Manguel (Lendo imagens, Companhia das Letras, 2000).
Foto: © Man Ray (1890-1976) (Retrato de Dora Maar, 1936)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Galeria: Tim Dirven



Fotos: © Tim Dirven (Havana, Cuba, 1999) (www.timdirven.com)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Imaginar

"Achar as coisas belas naturalmente nos leva a imaginar que permanecemos fiéis aos nossos sentimentos. (...) Apesar de ridicularizarmos aqueles que fingem entusiasmos estéticos na esperança de conquistar respeito, a tendência oposta é mais pungente, ela nos leva a reprimir as nossas verdadeiras paixões para não parecermos estranhos." (Alain de Botton, A arquitetura da felicidade). Não tenho as palavras certas para descrever as fotografias, mas posso dizer que gosto muito de imagens que designam o insólito. Não é que designe coisas de conteúdo mágico: simplesmente designa outras coisas. "A sabedoria suprema da imagem fotográfica é dizer: Aí está a superfície. Agora, imagine - ou, antes, sinta, intua - o que está além, o que deve ser a realidade, se ela tem este aspecto." (Susan Sontag, Sobre Fotografia). Ou seja, ler as imagens, seguir as pistas deixadas pelo fotógrafo, admirar, aprender, opinar: "Como foram sensatos os antigos sábios ao nos sugerirem que deixemos de fora do nosso ideal de contentamento qualquer coisa que um dia possa estar coberta de lava, ser carregada por um tornado, sucumbir a uma mancha de chocolate ou ficar suja de vinho." (Alain de Botton, ibidem).
Foto: © Ian Berry

Pep Bonet



Pep Bonet nasceu em Colonia de Sant Jordi, Palma de Maiorca, em 1974. Começou a estudar fotografia e dedicou-se profissionalmente depois de ver uma exposição do fotógrafo holandês Ed Van Der Elsken. Em 2002, foi eleito como um dos 30 melhores jovens fotógrafos pela New York Magazine. Durante os últimos sete anos, seu trabalho tem incidido sobre a África, em projetos de longo prazo incluindo as fotos do livro "Faith in Chaos", ensaio sobre o pós-guerra em Serra Leoa, e que lhe rendeu exposições e os prêmios Kodak Young Photographer's e em 2007, o segundo lugar no World Press Photo. Suas fotografias documentam as vítimas da guerra, jovens que tiveram seus membros amputados, e a recuperação da autoestima através da prática do esporte. Pep Bonet recebeu em 2005, o prêmio The W. Eugene Smith Grant in Humanistic Photography por seu trabalho sobre a pandemia do HIV na África. Bonet trabalha em associação com a organização Médicos Sem Fronteiras em seis países. Fotos: © Pep Bonet (http://www.pepbonet.com/

Médicos Sem Fronteiras

A organização não governamental Médicos Sem Fronteiras foi criada na França em 1971, por um grupo de médicos que havia trabalhado na guerra de Biafra, na Nigéria. Eles queriam fundar uma organização que, além de levar ajuda médica e humanitária a todos que precisassem, também chamasse atenção do mundo para as crises humanitárias. Atualmente, cerca de 3.500 Médicos Sem Fronteiras partem todos os anos, de diferentes países, e se unem a 20 mil profissionais locais para levar assistência profissional às pessoas que precisam em cerca de 70 países. O MSF age em casos de fome, epidemias, catástrofes naturais, conflitos armados e exclusão social. "Quando estou tratando de uma criança e ela me olha, sei que está melhorando. Quando me aproximo e ela tem forças para chorar, fico contente. Se ela aceita comer, esse é um primeiro passo fundamental, e se ela pede comida, aí então é maravilhoso." (Silvayne Blanty). Muitos fotógrafos trabalham em conjunto com a organização.
O MSF no Brasil: http://www.msf.org.br/
Foto: © Pep Bonet (Programa HIV-AIDS, Zâmbia, África)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Galeria: Ch'ng Yaohong



Fotos: © Ch'ng Yaohong (www.chngyaohong.com)

Tina Modotti: fotografia e revolução

"O compromisso de Tina Modotti com a revolução comunista parece ter se fortificado com a execução em 1927, nos Estados Unidos, dos italianos Sacco e Vanzetti. Embora Modotti antes acreditasse que as preocupações sociais não podiam ser expressas através da fotografia, ela agora havia entrado em sua fase que desmentia isso. Pondo sua arte a serviço da política revolucionária, ela usou sua câmera para retratar a injustiça social, fotografando trabalhadores, comícios políticos e pessoas pobres, como a bela foto de uma família camponesa do lado de fora da sua casa de adobe, quase coberta por um monte de espigas de milho secando, um símbolo da reforma agrária, a base da revolução mexicana. O revolucionário Julio Antonio Mella também acreditava que a foto da sua máquina de escrever era a síntese da fotografia e da política de Tina. Na carta que ele escreveu para ela, referiu-se ao "teclado que você socializou com sua arte". Da mesma forma, Benevuto Modotti escreveu cumprimentando a irmã quando outra fotografia sua, Martelo, foice e chapéu, foi publicada na capa do número de outubro da New Masses: "Você, sua pequena mentirosa, um dia me disse que não se pode expressar ideias sociais através da arte da fotografia. E você comprovou a si mesma que estava errada."
Margaret Hooks (Tina Modotti, fotógrafa e revolucionária, tradução Vera Whately e Heloísa Lanari, José Olympio Editora, 1997).
Foto: © Tina Modotti (1896-1942)

quinta-feira, 19 de março de 2009

José Medeiros: civilização

"O branco que se chamou de civilizado, insistiu em padronizar a sua "superioridade". Mas nem sempre foi feliz. (...) A mentalidade civilizada era a vitoriosa detentora do instrumento de todas as mágicas da inteligência. Era a possuidora da lógica. (...) A lógica que criara e disciplinara a ciência e que viera trazendo, nas conquistas da guerra e da paz, a luz decisiva do progresso. A lógica que de Aristóteles a Descartes pusera de pé mais que o homo faber, o mundo faber. Ao contrário desse título que justificava todos os privilégios e com eles os racismos e os imperialismos, uma outra pobre humanidade colorida de azeviche ou pigmentada de ocre, vegetava nas regiões onde ainda era permitido andar nu ou viver feliz. Para essa, era evidente que só poderia sobrar uma mentalidade diversa e inferior - a mentalidade pré-lógica. O primitivo, que, pela sua teimosa vocação de felicidade, se opunha a uma terra dominada pela sisudez de teólogos e professores, só podia ser comparado ao louco ou à criança." Oswald de Andrade ( A marcha das utopias, 1966).
"O comprometimento de Medeiros esteve sempre na sua postura de testemunhar, sem interferir ou tentar recriar a realidade do fato, praticando a máxima de W. Eugene Smith: Deixe que a verdade seja o seu preconceito." (Flávio Damm, Photo Magazine, 2009).
Foto: © José Medeiros (Indio Iaulapitis, Serra do Roncador, Parque do Xingu, Mato Grosso, 1949, Acervo IMS)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Galeria: Thomas F. Barrow



Fotos: © Thomas F. Barrow

Fotojornalismo: Christopher Anderson

A crise econômica da Rússia e a situação dos refugiados afegãos no Paquistão foram os primeiros trabalhos do fotógrafo canadense Christopher Anderson. Em 2002, ingressou na agência VU e à Magnum em 2005. Anderson foi homenageado com a medalha de ouro Robert Capa e os prêmios Visa Pour l’Image e Kodak Young Photographer. Em 2006 esteve em Caracas, fotografando Hugo Chávez, presidente da Venezuela desde 1999. Anderson também documentou a campanha eleitoral de Evo Morales, atual presidente da Bolívia. Recentemente, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) divulgou em seu relatório que não existe garantia de segurança para o trabalho de jornalistas em Venezuela, Bolívia, Cuba e Nicarágua. Na Bolívia, acontece um dos mais graves conflitos entre a imprensa e o governo. "Os violentos inimigos de sempre da liberdade de expressão fizeram novas vítimas entre os jornalistas, enquanto os governos populistas que seguem a cartilha do presidente venezuelano Hugo Chávez intensificaram suas campanhas de abuso e ridicularização das empresas de mídia e de seus repórteres", denunciou o relatório da SIP (AFP). Fotos: © Christopher Anderson (Magnum Photos)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Robert Frank: The Americans


The Americans, o primeiro livro do fotógrafo suíço Robert Frank foi publicado em 1958, em Paris, por Robert Delpire com textos de Alain Bosquet e no ano seguinte em edição americana pela Grove Press, com introdução de Jack Kerouac. Financiado com bolsa Guggenheim, Frank viajou durante os anos 1955 e 1956 por 30 estados americanos e levou um ano selecionando as 83 fotografias de um universo de mais de 28.000 negativos. Comparado a American Photographs, de Walker Evans, que tanto influenciou Frank, o livro The Americans atingiu toda uma geração de fotógrafos com uma força tremenda - "como se eles nunca tivessem visto aquilo antes", declarou a fotógrafa Diane Arbus. Depois de uma década de silêncio, Robert Frank voltou a fotografar, são trabalhos bem diversos de colagens, um trajeto mais introspectivo e autobiográfico. Frank deixa claro que é perseguido por muitas coisas, incluindo suas próprias fotografias. Em 2004, numa exposição retrospectiva, o filme "Conversations in Vermont" no qual Frank e seus filhos conversam sobre o passado utilizando suas fotos como dispositivos de memória, mostra que a história de sua vida pessoal está arraigada em sua obra. Segundo o crítico A. D. Coleman: "mesmo que Frank não tivesse produzido mais nada depois da publicação do livro, ainda assim ele teria transformado o meio e assegurado sua posição na história da fotografia." The Americans continua sendo o trabalho mais original e irreverente e pelo qual Robert Frank é imediatamente reconhecido.
Fotos: © Robert Frank

sábado, 14 de março de 2009

André Cypriano


André Cypriano ocupa um lugar de destaque na fotografia nacional e internacional, não somente pela qualidade de suas fotografias, mas também por vivenciar a antinomia da estética e da documentação, da perfeição e do momento não planejado, da ordem elaborada e da brutal desordem da realidade de uma favela, a Rocinha, no Rio de Janeiro, uma das maiores comunidades carentes do país. O livro, Rocinha, uma cidade órfã, é um projeto especial que revela a vida dos moradores, a arquitetura local e os momentos de lazer e trabalho. Selecionado pelo programa All Roads Photography que reconhece os profissionais que fotografam indígenas e minorias, foi premiado pela National Geographic Society, em 2005. Formado em Administração de Empresas e estudos de fotografia em São Francisco, Cypriano ganhou diversos prêmios por seus documentários, expostos em galerias e museus no Brasil, Europa e Estados Unidos. André Cypriano trabalha como fotógrafo free lance em Nova York e Rio de janeiro. Com fotografias que abordam questões culturais, acima de tudo, sociais, seus projetos, muitas vezes tristes e dolorosos, são retratados com leveza, imagens abertas às mudanças positivas na sociedade.


Fotos: © André Cypriano (http://www.andrecypriano.com/) Fotografias gentilmente cedidas. Todos os direitos reservados a André Cypriano.

segunda-feira, 9 de março de 2009

René Burri: Che

René Burri, usando uma teleobjetiva, fotografou Che Guevara em 1963 para revista Look:
" - Ele nos recebe no gabinete do Ministério da Indústria. Duas horas de conversa, duas horas de confronto, de extrema tensão. A jornalista Laura Bergquist, que acompanho, não só representa o inimigo ianque execrado, como pratica o jornalismo à americana, de pergunta-provocação: diante dela, aquele que é, aos olhos dos dirigentes e da opinião pública dos Estados Unidos, o homem a ser liquidado mais ainda que Fidel Castro, e que também não é mau de respostas-provocação. É o choque entre duas concepções de mundo inconciliáveis. Absolvido na discussão, Che não se importa comigo e não faz pose. Tiro assim oito filmes. Alguns negativos rodaram e rodam ainda o mundo."
Eric Godeau (Imagens que contam o mundo, 2007).
Fotos: © René Burri (Magnum Photos)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Hiroh Kikai

Hiroh Kikai começou a interessar-se por fotografia em 1969, quando o editor Shoji Yamagishi mostrou-lhe as fotos de Diane Arbus. Nascido em Yamagata, no Japão, em 1945, filósofo pela Universidade Hosei, em 1973. Kikai foi morar perto de Asakusa, um movimentado bairro de Tóquio, onde, ao longo das últimas duas décadas criou uma extensa série de retratos de pessoas que passam pelo local. O bairro de Asakusa, com palácios históricos da cidade, hoje abrange uma independente cultura popular tradicional do teatro de comédia e casas de entretenimento erótico, atraindo personagens marginalizados da sociedade moderna do Japão. Trabalhando com luz natural e a mesma câmera Hasselblad desde o inicio do projeto, kikai fotografa seus modelos em poucos minutos contra uma parede do famoso templo Senso-ji. Segundo Hiroh Kikai, identificar o local onde faz os retratos não tem a menor importância. Seu trabalho é documentar a personalidade da pessoa retratada, sua própria forma peculiar e a partir daí o diálogo que se estabelece, capaz de nos relacionar com este desconhecido da fotografia numa conversa silenciosa.
Foto: © Hiroh Kikai

A fisionomia da paisagem

"A organização simbólica da paisagem pode ajudar a diminuir o medo e a estabelecer uma relação segura entre o homem e seu ambiente total. Uma citação sobre o povo luritcha, da Austrália Central, ilustra bem esse ponto: "Para uma criança luritcha nascida à sombra de enormes e estranhas rochas, grandes o suficiente para encher de espanto o homem branco, cujos olhos já viram muitas maravilhas, as lendas que as identificam com a história de seu povo devem parecer uma fonte de grande satisfação. Se essas rochas imensas se erguem apenas para assinalar as perambulações dos espíritos ancestrais do povo, estabelecem uma relação familiar entre estes últimos e as crianças da tribo. As lendas e os mitos são mais que histórias contadas para passar as horas de escuridão: são parte dos meios pelos quais o selvagem se fortalece contra o medo do espanto e do desconhecido. Naturalmente atormentada como é a mente do homem primitivo pelos medos que decorrem da solidão, não admira que ele se apegue fortemente à ideia de que essa Natureza vasta e indiferente - quando não inimiga - comemore, em muitas de suas mais extraordinárias características, a história de sua tribo e esteja sob seu controle pela prática da magia." Kevin Lynch (A imagem da cidade, tradução Jerfferson Luiz Camargo, Ed. Martins Fontes, 1999).
Em fotografia encontramos uma agradável sensação de familiaridade ou integridade sempre que reconhecemos uma paisagem.
Foto: © Raymond Depardon

terça-feira, 3 de março de 2009

Haruo Ohara

Armando Freitas Filho
(3 X 4, 1985)


Todo céu é anônimo
embora os cartões-postais
tentem localizá-lo (...).
Este aqui é de © Haruo Ohara (1909-1999)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Galeria: Willy Ronis



Fotos: © Willy Ronis