Roland Barthes queria uma História dos Olhares: "Pois a Fotografia é o advento de mim mesmo como outro". Para João Ricardo a revelação das faces dessa identidade é descobrir uma ideia nova, uma técnica nova, é este desafio que o faz gostar tanto de fotografar. Estudou fotografia nos cursos de Fine Art Photography, em San Diego e em Lisboa, quando se formou pelo Instituto de Arte e Design. No início da carreira profissional fotografava com filme, o equipamento digital foi adquirido em 2007, quando ganhou o primeiro e o segundo lugar num concurso nacional de fotografia P&B. João explica que a passagem para o digital foi um pouco difícil, ciente de que a tecnologia não apresenta os mesmos resultados, principalmente em relação à textura, perde-se o grão e a possibilidade de ressaltar volumes: - "Com o filme eu pensava mais antes de fotografar, nas composições e enquadramentos, no digital acho que perdi um pouco deste processo". A opção de migrar da película para o digital, seja pela praticidade ou exigência do mercado, não diminuiu a inspiração de João Ricardo ao registrar novos olhares que podem estar ali, próximos ou do outro lado do mundo.
Fotos: Cortesia © Joao Ricardo
Convidado a participar da nova Biblioteca Digital Mundial, o Brasil é um dos fundadores de site e depositário no projeto que tem como objetivo permitir que o público e pesquisadores tenham acesso, gratuito e em alta definição, a documentos históricos e representativos do país. Mapas do século XVI e imagens raras do século XIX, com cerca de 1.200 fotografias da coleção D. Thereza Christina Maria, doada à Biblioteca Nacional por D. Pedro II. A Biblioteca Digital Mundial tem a participação de 32 instituições de cerca de 20 países como Egito, México, Rússia, França, Israel e Uganda. Os documentos disponibilizados pela Biblioteca do Congresso norte-americano, a principal instituição a participar do projeto, integram o National Archives and Records Administration (Nara).
Foto: Joaquim José Insley Pacheco (1803-1912) (Imperatriz Thereza Christina, 1822-1889).
Endereço: http://www.worlddigitallibrary.org/
(...)"Enfim, veio Daguerre. Obtém-se a visão fotográfica, que se difunde no mundo com estranha rapidez. Assiste-se a uma revisão de todos os valores do conhecimento visual. A maneira de ver se modifica e se torna exata, enquanto os próprios costumes se ressentem da novidade, que, do laboratório, passa imediatamente à prática, e introduz necessidades e usos inéditos na vida. Todo mundo terá seu retrato, favor outrora excepcional. O fotógrafo ambulante percorre os campos. (...) A História é um relato ao qual fornecemos algo que o distinga de um conto. Emprestamos a ela nossa energia atual e todos os nossos recursos de imagens, necessariamente retirados do presente. Adaptamos a ela nossas simpatias e nossas antipatias; construímos também sistemas de acontecimentos, e damos, segundo nosso coração e o poder de nosso pensamento, uma espécie de existência e de substância a personagens, a instituições, a negócios ou a dramas, cujos documentos só nos propõem um argumento verbal, às vezes dos mais sumários. Para uns, a História se resolve, portanto, em um álbum de imagens, em roteiros de óperas, em espetáculos e em situações, geralmente críticos. Entre esses quadros que nosso espírito compõe e experimenta, há os que nos oferecem fantasias, efeitos de teatro muito belos e inacreditáveis, que interpretamos às vezes como símbolos, transposições poéticas de acontecimento reais. Para outros, mais abstratamente curiosos pela História, esta é um registro de experiências humanas que deve ser consultado como se consultam os anais da meteorologia, e com o mesmo cuidado de descobrir no passado alguma coisa do futuro." Trechos do discurso de 1939 do poeta francês Paul Valéry (Paul-Ambroise Valéry Toussaint, 1871-1945), diretor da Academia Francesa, em comemoração à invenção da fotografia, intitulado Centenaire de la photographie. (Inimigo Rumor 20, Tradução Júlio Castañon Guimarães, Cosac Naify, 2008)
"Quando a imagem é resultado de um encontro privado, e obedece portanto a um acordo prévio entre as partes, quase sempre há uma história. Porém quando o retratado quer dar uma ajuda ao fotógrafo, beiramos a catastrofe. Em vez de se deixar levar, de esquecer de si mesmo e do fotógrafo, Paul Valéry pretende ajudá-lo assumindo uma pose. De frente, três quartos, perfil, perfil bom, perfil ruim... (...) Suas reações não são apenas de uma pessoa que se ama, mas de um homem que tem medo da câmera, medo de não poder controlar seu trabalho silencioso, medo de nada poder controlar de sua imagem depois de o fotógrafo capturá-la. Cada vez que ouve o clique do disparador, Valéry pergunta nervosamente: - O senhor já tem o que queria? Por que ele não pensa no que escreveu em 1939, sobre as coisas vistas que correspondem às coisas sensíveis graças ao "demônio repórter-fotográfico"? Por que ele não medita sobre os ensinamentos dados a Degas por seu mestre Mallarmé, cuja foto ocupa um lugar de honra à sua frente em cima da chaminé? Um retrato é sempre uma aventura. Não existe nada menos deliberado." Pierre Assouline (Cartier-Bresson, o olhar do século, Tradução Julia da Rosa Simões, L&PM Editores, 2008). Foto: © Henri Cartier Bresson (Paul Valéry, 1945)

Fotos: © Bruce Davidson ( East 100th Street, NYC, 1966)


O fotógrafo dinamarquês Jakob Carlsen ganhou o World Understanding Award por documentar os "Untouchables of Asia" (Intocáveis da Ásia). Os Dalits, cidadãos indianos que são submetidos à desumana discriminação pelo sistema de castas. Na Índia, os Dalits compõem um quinto da população e afeta cerca de 260 milhões de pessoas em todo o mundo. De acordo com o hinduísmo, são seres impuros, intocáveis por algo que eles fizeram numa vida anterior e por isso são mantidos afastados da sociedade (um sistema de sanções econômicas e sociais). Obrigados a viver em assentamentos na periferia de cada aldeia e proibidos de acesso em locais públicos, como estradas, templos e até mesmo de receber os serviços básicos de água, saúde e educação. Muitas crianças assumem responsabilidades de trabalho, quer pelo uso da força ou porque seus pais não conseguem nenhum outro serviço e, portanto, têm de escolher entre fazer o "impuro" mal remunerado ou passar fome. A prática da intocabilidade é proibida por lei na Índia há mais de 50 anos, mas a vontade política é insuficiente para impedir a violação dos direitos humanos com base na ascendência. . Fotos: © Jakob Carlsen (http://www.jakobcarlsen.dk/)
O autor e editor Steven Heller, chamado pela designer Paula Scher de "o cronista do design", apresenta em seu livro Linguagens do Design, conhecendo o design gráfico (Tradução de Juliana Saad, Edições Rosari, 2007) o artigo sobre o designer James Victore e seu primeiro poster polêmico, Celebrate Columbus. Criado em 1992, quando Victore suspeitava que toda a badalação em torno da comemoração dos quinhentos anos do "descobrimento" da América por Cristóvão Colombo, que estava sendo criticada pelos grupos indígenas norte-americanos e outros grupos ligados aos direitos humanos, merecia um contraponto. Usando o dinheiro destinado ao pagamento de seu aluguel, imprimiu 3 mil pôsteres que mostrava uma foto antiga de um guerreiro indígena sobre a qual foi feito um desenho, tipo grafite, de forma que o rosto ficasse parecido com uma caveira. Com a ajuda de alguns voluntários, colou, sem autorização, cerca de duzentas cópias pelos muros e placas da cidade de Nova York. Também enviou por correio, tubos contendo pôsteres para várias organizações indígenas. Não recebeu resposta alguma e percebeu que a polícia havia retirado o maior número de pôsteres que conseguiu, para que a celebração não fosse estragada. Todavia alguns continuaram intactos até o dia da comemoração do Columbus Day, e assim puderam exercer algum impacto. Victore presenciou algumas pessoas olhando e lendo os pôsteres, o grupo, embora pequeno, deixou o autor feliz. Victore não estava tentando jogar pedra alguma na janela alheia, somente queria mostrar que há sempre um outro lado da história.Foto: autor desconhecido (guerreiro sioux) (http://www.jamesvictore.com/)
"Marcel Gautherot (1910-1996) revela um conhecimento da nossa história social através das séries fotográficas, quando prioriza o trabalho e os objetos criados pelo homem para desenvolvê-lo. Seu principal objetivo era contar histórias de diferentes regiões do país por meio de retratos, artefatos e da religiosidade, já que os homens produzem objetos, tanto funcionais como simbólicos, para expressar-se e comunicar-se com o mundo." Rubens Fernandes Junior (O Brasil de Marcel Gautherot, IMS, 2001). Guerreiros, auto composto por elementos de velhos reisados. Os personagens principais são: rei e rainha dos guerreiros, rainha da nação, o indio Peri, a lira, general e sereia - num total de até 45 participantes. O enredo inclui a morte e ressurreição da lira e a luta de espada de Peri com os guerreiros. Encena-se em Alagoas, entre 24 de dezembro e 6 de janeiro. Fotos: © Marcel Gautherot (Guerreiros, festa popular, c.1943)Acervo: Instituto Moreira Salles
"Em filosofia usa-se o termo "ilusão" principalmente em relação à questão sobre se os sentidos enganam ou não. A distinção estabelecida pelos filósofos gregos entre "realidade" e "aparência" está baseada, em parte, na desconfiança da percepção sensorial. O "mundo da aparência" é o "mundo da ilusão". O conceito de "ilusão" está ligado ao de "aparência", no sentido de ver: as coisas "aparecem" de modo distinto daquele como realmente são." José Ferrater Mora (Dicionário de filosofia, Tradução Roberto Leal Ferreira e Álvaro Cabral, Martins Fontes, 2001), Em fotografia estamos sempre procurando a relação entre a imagem e a realidade que ela supostamente representa. Jacques Aumont (A imagem, 1993) analisa os seus efeitos: "Nosso hábito profundamente arraigado de ver quase sempre imagens fortemente analógicas costuma fazer com que apreciemos mal o fenômeno da analogia, ao relacioná-lo de modo inconsciente a um tipo de ideal, de absoluto, que é a semelhança perfeita entre a imagem e seu modelo." (...) A imagem fotográfica tem uma essência, que é ser uma "alucinação verdadeira", "embalsamar" e "revelar" o real em todos os seus aspectos, inclusive temporais. É pois a encarnação de uma semelhança ideal, apta a satisfazer a necessidade de ilusão mágica que está no fundo de todo desejo de analogia." É fundamental não confundir, mesmo que sejam conexas, as noções de ilusão, de representação e de realismo. "A ilusão não é a finalidade da imagem. É, no fundo, um dos problemas centrais: em que medida a representação visa ser confundida com o que representa?"
Foto: © Dai Sugano (http://www.daisugano.net/)
Nova York: 1931, registro curioso de um baile à fantasia com os mais destacados arquitetos de Manhattan fantasiados como seus próprios arranha-céus. "Essa uniformidade é injusta para alguns dos participantes. Joseph H. Freedlander, embora tendo projetado somente o Museu da Cidade de Nova York, com quatro andares, e nada mais alto que isso, prefere a situação embaraçosa de acompanhar os outros em seus trajes de arranha-céus a vestir seu smoking sozinho e honestamente. Leonard Schultze, projetista do Waldorf-Astoria, que está prestes a ser inaugurado, teve de apresentar a estrutura de torres gêmeas - e apenas uma delas - num único enfeite de cabeça. O elegante topo do edifício Fuller, de A. Stewart Walker, tem tão poucas aberturas que a fidelidade ao projeto condena seu autor a uma cegueira temporária. O encaixe reto entre a roupa de arranha-céu e o enfeite de cabeça de Ely Jacques Kahn reflete a natureza de seus edifícios: por jamais buscarem pináculos dramáticos, eles parecem montanhas agachadas. Thomas Gillespie conseguiu o impossível: está fantasiado de vazio para representar uma estação de metrô ainda sem nome. Raymond Hood foi como seu edifício Daily News (ele trabalha dia e noite no projeto do Rockefeller Center, tão complexo e "moderno" que resistiria a ser transposto para um traje único). Em destaque, como ocorre desde 1929 no palco do centro de Manhattan, está o edifício Chrysler, de William Van Alen. (...) Os arquitetos de Nova York, ao tornar seus arranha-céus compulsivamente competitivos, transformaram toda a população num corpo de jurados. Esse é o segredo de seu contínuo suspense arquitetônico." Rem Koolhaas (Nova York delirante, tradução Denise Bottmann, Cosac Naif, 2008). Foto: autor desconhecido (acervo: http://www.metrohistory.com/)
"Alguém me pede uma explicação da teoria de Einstein. Com muito entusiasmo, falo de tensores e geodésicas tetradimensionais. - Não entendi uma única palavra - me diz, estupefato.Reflito um instante e logo, com menos entusiasmo, dou uma explicação menos técnica, conservando algumas geodésicas, mas fazendo intervir aviadores e disparos de revólver.- Já entendi quase tudo - diz meu amigo, com bastante alegria. - Mas há algo que ainda não entendo: essas geodésicas, essas coordenadas...Deprimido, mergulho em uma longa concentração mental e acabo por abandonar para sempre as geodésicas e as coordenadas; com verdadeira ferocidade, me dedico exclusivamente a aviadores que fumam enquanto viajam à velocidade da luz, a chefes de estação que disparam um revólver com a mão direita e verificam tempos com um cronômetro que têm na mão esquerda, a trens, sinos e vermes de quatro dimensões. - Agora sim, agora entendi a relatividade! - exclama meu amigo com alegria. - Sim - respondo amargamente -, mas agora não é mais a relatividade." Ernesto Sábato (Nós e o universo, tradução Janer Cristaldo, Ed. Francisco Alves, 1985). A fotografia não é simplesmente uma imagem, é considerada como obra intelectual, e como tal está protegida por Lei. Mesmo que ninguém tenha me perguntado -, não, não é correto reproduzir e divulgar fotos sem o crédito do fotógrafo (Lei dos Direitos Autorais ou Código dos Direitos de Autor). O ato de fotografar inclui também o ato de sua contemplação, seja qual for o objeto que represente, em toda a sua superfície e extensão -, e repito com muito entusiasmo - o crédito é obrigatório em qualquer mídia. A fotografia é memória de um indivíduo, não de uma máquina.

Manila é a capital das Filipinas e a segunda cidade do país em número de habitantes. Sua população residencial é de cerca de 19 milhões de pessoas, o que a torna a sétima região metropolitana mais populosa do mundo e a segunda maior do Sudeste Asiático. O fotógrafo James Chance documentou a superlotação e a pobreza em que vivem cerca de 100 famílias que moram no Cemitério público da capital. O cemitério tornou-se uma alternativa às favelas, que estão em constante risco de serem demolidas. Na comunidade, as crianças não conseguem matrícula na escola pública porque o endereço do cemitério não tem legitimidade de domicílio, algumas famílias esforçam-se por garantir que seus filhos estudem no ensino privado, mas a maior parte das crianças não recebe nenhuma educação formal. Periodicamente, as autoridades locais expulsam os moradores do cemitério, sem qualquer possibilidade de escolha, logo depois, todos retornam. O documentário e a exposição de "Living with the Dead: Manila's North Cemetery " é essencial para tornar o conceito de "direitos humanos" uma realidade para todas as pessoas. James Chance trabalha como fotógrafo independente, em Denver, Colorado, tem seus trabalhos publicados em diversos veículos como, Time, Newsweek, The Wall St. Journal, Businessweek, Stern, CNN e NBC.Fotos: © James Chance (http://www.jameschance.com/)
"A fotografia eleitoral é, pois, antes de mais nada, reconhecimento de uma profundidade, de um irracional extensivo à política. O que é exposto, através da fotografia do candidato, não são seus projetos, são suas motivações, todas as circunstâncias familiares, mentais, e até eróticas, todo um estilo de vida de que ele é, simultaneamente, o produto, o exemplo, e a isca. É óbvio que aquilo que a maior parte dos nossos candidatos propõe através de sua efígie é uma posição social, o conforto especular das normas familiares, jurídicas, religiosas, a propriedade infusa de certos bens burgueses, tais como, por exemplo, a missa de domingo, a xenofobia, o bife com batatas fritas, e o cômico das situações de infidelidade conjugal, ou seja, aquilo a que se chama uma ideologia. Naturalmente, o uso da fotografia eleitoral supõe uma cumplicidade: a foto é espelho, ela oferece o familiar, o conhecido, propõe ao eleitor a sua própria efígie, clarificada, magnificada, imponentemente elevada à condição de tipo. É aliás, esta ampliação valorativa que define exatamente a fotogenia: ela exprime o eleitor, e simultaneamente, transforma-o num herói; ele é convidado a eleger-se a si próprio, incumbindo o mandato que vai dar de uma verdadeira transferência física: delega de algum modo a sua "raça"." Roland Barthes (Mitologias, tradução Rita Buongermino e Pedro de Souza, Difel, 1980).Foto: © Claudia Ferreira (Campanha eleitoral, 1989)(http://www.memoriaemovimentossociais.com.br/)